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A Lectio Divina por São João da Cruz

Por | LECTIO DIVINA

São João da Cruz parafraseando versículo do Evangelho de Lucas (11:9), nos dá um esboço dos quatro passos da Lectio Divina:

Procure na Leitura e você encontrará na Meditação. Bata à porta da Oração e se lhe abrirá na Contemplação.

A Oração é sempre uma graça, um dom. Lectio é uma tentativa de não fabricá-la mas de nos capacitar a responder a esse dom desde o primeiro “convite” e a nos dispormos ao seu desenvolvimento. Não podemos trazer nenhum roteiro pessoal para o processo.

1. Leitura: Lectio

Aquiete o corpo e a mente. Escolha um texto… preferivelmente curto…. leia-o lentamente, ouvindo interiormente, com toda atenção ao mesmo. Personalize as palavras como se Deus as dissesse para você, agora.

2. Meditação.

Responda, como se recebesse a leitura num nível mais profundo. Movimente-se nesse texto na fé, como se morasse nele, com a imaginação e o intelecto. Deixe o texto agir em você.

3. Oração

Agora não se trata de “fazer algo” mas acontece um movimento espontâneo do coração em resposta ao Espírito que conduz. Na oração , o coração assume o controle, sente saudades e clama por Deus.

4. Contemplação

Nas três outras fases a atividade foi um fator dominante. Ao nos movermos mais profundamente na relação com Deus, Deus assume o controle mais e mais, ao fechar nossas faculdades naturais da razão e imaginação. Experimentamos uma espécie de secura da devoção e do sentimento, uma inabilidade de meditar como antes. Somos conduzidos a uma oração solitária, atenta e amorosa mas obscura, como uma “atenção passiva”.

Acolha, sem colocar nenhum obstáculo ao movimento do Espírito. Siga a atração para o silêncio interior e permaneça em atenção amorosa, deixando-se conduzir a essa “escuridão” do amor de Deus. Contemplação é uma nova terra onde tudo antes natural para nós parece ter se virado de cabeça para baixo. Aprendemos uma nova língua….. silêncio…. e uma nova maneira de ser…. não fazer, mas simplesmente ser…. e compreender a aparente ausência de Deus como Presença.

Como navegar com segurança nos mares digitais

Por | FORMAÇÕES

O segredo da felicidade conjugal está no quotidiano, não em sonhos. Também no aproveitamento de todos os avanços que nos proporciona a civilização, para tornar a casa agradável, a vida mais simples, como se destaca neste editorial.

A aventura educacional, hoje, inclui o desejo de aprender e ensinar a aproveitar os novos meios e modos de comunicar para que seu uso nos ajude a amadurecer como pessoas, e para que as crianças não diminuam a qualidade de sua vida familiar, e sim que a melhorem. Portanto, não seria eficaz simplesmente proibir o uso das novas tecnologias – a privação nem sempre é via de educação–, pelo contrário, seria melhor aprender a aproveitá-las, seguindo o conselho do Papa Francisco, que disse que comunicar bem pode ajudar-nos a «conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos»[1].

O caminho adequado será acompanhar os mais jovens para que adquiram una consciência reta, e prepará-los para o dia a dia. Assim crescerão e aprenderão a comportar-se com naturalidade e sentido cristão em todos os ambientes. A tarefa de educar busca a formação em virtudes, e ao mesmo tempo semeia critérios profundos. Só desse modo os filhos poderão ter uma vida boa, ordenando e moderando seus impulsos, controlando seus atos, superando com alegria os obstáculos para buscar e fazer o bem, também na esfera digital.

Como cada pessoa é diferente, vale a pena pensar como aproximar-se de cada filho. Será conveniente buscar momentos em que marido e mulher estejam a sós para falar sobre como ajudar cada um; e, um dos âmbitos sobre o que se deve refletir é, justamente, o uso das novas tecnologias, já que educar exige tempo, dedicação e alguma organização.

A educação deve favorecer que as crianças sejam donas de si mesmas. Este objetivo é atingido ajudando-as a lutar em coisas concretas, a vencer-se em pequenas batalhas, a cumprir um horário, a respeitar o silêncio dos outros, a ter horas previstas para usar os videogames ou conectar-se à Internet. Como apontava São João Paulo II «esta fadiga e este esforço são necessários, aí se tempera o corpo, mas também o homem inteiro experimenta a alegria de dominar-se e de superar os obstáculos e resistências. Certamente, este é um dos elementos de crescimento que caracteriza a juventude» [2].

Domínio de si

O Catecismo da Igreja Católica descreve a função da temperança no sentido de «moderar», «manter», «assegurar», «orientar», «guardar»… A temperança conduz a um espírito senhoril no uso dos bens criados que se alcança «ordenando» as inclinações para o bem. Quando se vive esta virtude, «a vida recupera então os matizes que a intemperança esbate. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes»[3].

A etiqueta digital

«O desejo de conexão digital pode acabar isolando-nos do nosso próximo, de quem está mais perto de nós»[4]. Una tarefa sempre atual será a de promover as relações pessoais. Por exemplo, o modo normal de transmitir os temas decisivos, será através de uma conversa “face a face”. As coisas importantes não podem ser resolvidas ou decididas através de mensagens ou virtualmente. Poderia ser muito útil estabelecer este tipo de política em casa: para pedir desculpas depois de um mau comportamento, ou para consultar sobre um plano importante convém recorrer a conversas no mundo físico.

Além disso, é oportuno explicar com paciência a importância de não deixar-se levar pelo imediatismo. O atordoamento pode conduzir, por exemplo, a faltas de cortesia e de urbanidade com o próximo. Pode ser oportuno ter outras regras de “etiqueta digital”, como: não atender ao telefone quando se está conversando com alguém, especialmente se é uma pessoa mais velha; por em off os dispositivos eletrônicos durante as refeições; respeitar o turno para utilizar o computador da casa, etc.Também é formativo explicar por que não convém responder com a “cabeça quente”, em especial nos meios que chegam a muita gente: redes sociais, grupos de WhatsApp, etc. Nesses ambientes não é bom fazer muitas declarações, nem comunicar decisões tomadas quando estamos ofendidos ou magoados, porque nessas situações a paixão leva a dizer ou escrever coisas que pouco tempo depois podemos acabar lamentando. Se os pais estiverem atentos e perceberem que um filho deixou-se levar pela ira ou a precipitação, será una boa ocasião para ter uma conversa mais profunda, ensinando- o a temperar seu caráter, animando-o a atuar com serenidade, e a não reagir sob a influência das paixões momentâneas.

Dominar a curiosidade

Um bom caminho para consolidar a confiança que as crianças tem em seus pais, é quando desde pequenos, tentam responder às suas curiosidades, quando perguntam o porquê das coisas. Um filho só se abre com seus pais quando nota que eles estão acostumados a ouvi-lo em qualquer momento, sobre qualquer coisa. Será conveniente facilitar que perguntem as dúvidas que naturalmente vão surgindo. E quando temos as respostas talvez dizê-lo com claridade: “isto não sei, mas vou pesquisar” e depois, quando conseguimos os dados, terminar a explicação.

Se os filhos tiverem a confiança de perguntar aos pais as dúvidas que surgirem, evitaremos que resolvam todas as suas perguntas só e sempre através da internet. Muitos pais de família preocupam-se pelas facilidades que a rede oferece para acessar pornografia ou informação potencialmente danosa, como mensagens que promovem o ódio ou informações sobre como fabricar armas, etc. Inclusive, às vezes, chegamos a esses conteúdos sem termos buscado. Com poucos clics um menino inquieto pode encontrar um oceano de material violento e cheio de ódio, de sensualidade, etc. Em algumas ocasiões, esta informação encontra-se em sites que parecem inofensivos. Neste campo é importante ensinar a utilizar Internet com um objetivo claro, não só para passar o tempo, e se, sem querer aparecem conteúdos inconvenientes, cortar sem concessões, pondo em prática o conselho de São Josemaria: « Deixa-me que te repita: tem a coragem de fugir, e a energia de não manusear a tua fraqueza pensando até onde poderias chegar»[5].

Algumas vezes, pode ser útil pedir ajuda aos filhos para configurar as opções de privacidade da rede social pessoal ou conversar sobre um correio “maligno” que o pai ou a mãe receberam. Assim se pode ir dando critério, já que, afinal vão ser eles mesmos que agirão, e é importante lançar-se à “arriscada confiança” de permitir-lhes crescer em responsabilidade de acordo com suas idades.

Ajudar a focar-se

Ouve-se com frequência que as novas tecnologias favorecem a superficialidade. Sem dúvida, o que não chega a dizer-se é que o problema radica na dispersão da atenção que se produz quando se realiza de forma simultânea três ou quatro tarefas. Algumas crianças pretendem ler um livro, e enquanto isso, não só escutam música, mas ao mesmo tempo revisam as atualizações das suas redes sociais, e estão atentos às notificações que chegam ao smartphone. Esfumaça-se a linha entre uma atividade e outra. Embora seja verdade que algumas atividades podem ser feitas ao mesmo tempo, também é claro que há outras que requerem uma maior concentração, como é o caso do estudo. Normalmente o cérebro não tem capacidade de estar em várias coisas com a mesma intensidade. Será muito útil buscar formas que ajudem a centrar a atenção; além disso, será um dos melhores conselhos para que no dia de amanhã se convertam em bons profissionais.

Nesta tarefa é preciso apresentar os motivos de fundo. Ante uma pergunta como: porque não posso ver agora um vídeo de só três minutos? É necessário explicar – por exemplo – que não se trata só de tempo, mas que é melhor não acostumar-se a seguir todos os estímulos que aparecem ao nosso redor, que podem nos distrair da atividade que estamos realizando nesse momento: faz o que deves e está no que fazes[6].

Como recorda o Papa Francisco, «devemos recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar»[7]. Precisamos estar prevenidos contra a dissipação. Vale a pena evitar que a atenção se disperse excessivamente, para facilitar que os filhos se concentrem no estudo, ou para conseguir que rezem com vontade. O contrário torna tudo mais difícil, pois assim deixas que os teus sentidos e potências bebam em qualquer charco. – E depois andas desse jeito: sem firmeza, dispersa a atenção, adormecida a vontade e desperta a concupiscência[8].

O falso atrativo da vaidade

Muitos dos avanços tecnológicos atuais, quando não são retamente utilizados, têm a potencialidade de aumentar o individualismo, de centrar tudo em melhorar a aparência manifestando uma mentalidade superficial. « Os jovens são particularmente sensíveis ao vazio de significado e de valores que muitas vezes os circunda. E, infelizmente, pagam as suas consequências»[9].

Uma manifestação de vaidade é a obsessão por incrementar a qualquer preço a quantidade de contatos (friends/followers) acumulados na esfera digital. Nas redes sociais geralmente conseguem mais seguidores aqueles que publicam com constância material interessante, divertido, ou íntimo. «O significado e a eficácia das diferentes formas de expressão parecem determinados mais pela sua popularidade do que pela sua importância intrínseca e validade. E frequentemente a popularidade está mais ligada com a celebridade ou com estratégias de persuasão do que com a lógica da argumentação» [10].

Uma possível tentação é publicar coisas íntimas, que chamam mais a atenção ou despertam a curiosidade dos outros. Os jovens saberão manter-se afastados destes extremos se lutarem – sempre positivamente – por alcançar metas altas, através de vitórias concretas em pequenos atos de virtude e vencimento.

Uma comunicação familiar fluida ajudará a compreender as questões de fundo, e a criar um ambiente de confiança no qual as dúvidas possam ser resolvidas e as incertezas manifestadas. São Josemaria geralmente aconselhava falar nobremente com os filhos, vê-los crescer com carinho, soltando a corda pouco a pouco, porque necessitam da sua liberdade e sua personalidade.

A sociabilidade

O homem é um ser social por natureza: comunicar-nos e estar em contato com outras pessoas faz parte de nosso desenvolvimento pessoal. Cada um atua em diversos círculos sociais: família, amigos, conhecidos. A adolescência é a etapa em que estas relações vão tomando forma e, principalmente, profundidade. A necessidade de relacionar-se socialmente vai muito unida ao sentido de pertencer a um grupo. As novas tecnologias oferecem recursos aos jovens para dar coesão ao grupo de amigos; de fato é comum que entre eles formem grupos virtuais e compartilhem conteúdos de acesso restrito.

As novas tecnologias podem ser usadas como meio para fortalecer as amizades que se formaram fora da rede, mas ao admitir a amizade de amigos de amigos, que não necessariamente estão no círculo íntimo, convém fazer notar que o conteúdo que ali se instale ficará disponível para um público amplo.

Porém às vezes o sentido de pertencer ao grupo pode levá-los a estar excessivamente preocupado com as atualizações nas postagens de seus amigos, das novas interações. Pode acontecer também que em reuniões sociais, ou festas, estejam mais preocupados com as fotos que tiram e do imediatismo com que as publicam na rede, do que com estar com as outras pessoas presentes na reunião. É um desafio não deixar passar essas ocasiões, e de modo amável, educá-los no respeito aos demais, na nobreza de sentimentos e na cortesia.

Fortaleza e liberdade

Ensinar a dizer que não, equivale a ensinar a dizer um grande sim, mostrando a beleza das virtudes, via para una vida feliz. Por isso, é de grande ajuda explicar o valor de opor-se razoavelmente, e de saber dizer que não – se é preciso dizer que não–, com clareza e firmeza. Dizer que não, será manifestação concreta de domínio próprio, sem perder a elegância e a moderação, nem esquecer os bons modos.

Os filhos devem encontrar em seus pais os mais decididos defensores da sua liberdade pessoal. Liberdade com responsabilidade, ainda que dependendo da idade é importante respeitar a intimidade de seus aparelhos eletrônicos. Quando tiverem smartphones ou tablets não será o comum opor-se a que ponham contra-senhas. Em algumas famílias também se anima a que em algum momento outro irmão possa compartilhar o dispositivo, e nesse caso o conteúdo ficará exposto. Dessa maneira sabem que devem ser transparentes, e que em qualquer momento alguém mais da família entrará em seus aparelhos, mesmo que de forma esporádica e inesperada, não para “farejar” mas por um sentido de desprendimento e de vida comunitária familiar.

Definitivamente não podemos esquecer que o segredo da felicidade familiar está no cotidiano, também no aproveitamento de todos os avanços que nos proporciona a civilização, para tornar a casa agradável, a vida mais simples, a formação mais eficaz[11].

[1] Francisco, Mensagem para XLVIII Dia Mundial das Comunicações Sociais[2] São João Paulo II, Carta Apostólica Dilecti Amici, n. 14.

[3] São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, 84

[4] Francisco, Mensagem para XLVIII Dia Mundial das Comunicações Sociais

[5] São Josemaria Escrivá, Sulco, 137

[6] São Josemaria Escrivá, Caminho, 815

[7] Francisco, Mensagem para XLVIII Dia Mundial das Comunicações Sociais

[8] São Josemaria Escrivá, Caminho, 375

[9] Francisco, Ângelus na praça de São Pedro, 4 de agosto de 2013

[10] Bento XVI, Mensagem para XLVII Dia Mundial das Comunicações Sociais

[11] São Josemaria Escrivá, Questões Atuais do Cristianismo, 91

A fé sobrenatural

Por | PARTILHA DO FUNDADOR

1. Noção e objeto da fé

O ato de fé é a resposta do homem a Deus que Se revela (cf. Catecismo, 142). “Pela fé o homem submete completamente sua inteligência e sua vontade a Deus. Com todo seu ser, dá assentimento a Deus que revela” (Catecismo, 143). A Sagrada Escritura chama este assentimento de “obediência da fé” (cf. Rm 1, 5; 16, 26).

A virtude da fé é uma virtude sobrenatural que capacita o homem – ilustrando sua inteligência e movendo sua vontade – a assentir firmemente a tudo o que Deus revelou, não por sua evidência intrínseca, mas pela autoridade de Deus que revela. “A fé é, antes de tudo, adesão pessoal do homem a Deus; é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o assentimento livre a toda verdade que Deus revelou” (Catecismo, 150).

2. Características da fé

– “A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele (cf. Mt 16, 17). Para dar a resposta da fé é necessária a graça de Deus” (Catecismo, 153). Não basta a razão para abraçar a verdade revelada; é necessário o dom da fé.

A fé é um ato humano. Ainda que seja um ato que se realiza graças a um dom sobrenatural, “crer é um ato autenticamente humano. Não é contrário nem à liberdade nem à inteligência do homem depositar sua confiança em Deus e dar sua adesão às verdades por Ele reveladas” (Catecismo, 154). Na fé, a inteligência e a vontade cooperam com a graça divina: “Crer é um ato do entendimento que assente à verdade divina por determinação da vontade movida por Deus mediante a graça”[1].

Fé e liberdade. “O homem, ao acreditar, deve responder voluntariamente a Deus; ninguém deve ser obrigado a abraçar a fé. Com efeito, o ato de fé é voluntário por sua própria natureza” (Catecismo, 160)[2]. “Cristo convidou à fé e à conversão, jamais forçou alguém a crer. Deu testemunho da verdade, mas não quis impô-la à força aos que O contradiziam” (ibidem).

Fé e razão. “Apesar de a fé estar acima da razão, jamais pode haver desacordo entre elas. Posto que o mesmo Deus que revela os mistérios e comunica a fé fez descer no espírito humano a luz da razão, não poderia negar-Se a Si mesmo, nem o verdadeiro contradizer jamais ao verdadeiro”[3]. “Por isso, a investigação metódica em todas as disciplinas, se se procede de um modo realmente científico e segundo as normas morais, nunca estará em oposição realmente com a fé, porque as realidades profanas e as realidades da fé têm sua origem no próprio Deus” (Catecismo, 159).

Carece de sentido tentar demonstrar as verdades sobrenaturais da fé; por outro lado, pode-se provar sempre que é falso tudo o que pretende ser contrário a essas verdades.

Eclesialidade da fé. “Crer” é um ato próprio do fiel enquanto fiel, isto é, enquanto membro da Igreja. Aquele que crê assente à verdade ensinada pela Igreja, que custodia o depósito da Revelação. “A fé da Igreja precede, gera, conduz e alimenta nossa fé. A Igreja é a mãe de todos os crentes” (Catecismo, 181). “Ninguém pode ter a Deus por Pai se não tem a Igreja por mãe”[4].

A fé é necessária para a salvação (cf. Mc 16, 16; Catecismo, 161). “Sem a fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11, 6). “Aqueles que sem culpa própria não conhecem o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus de coração sincero e procuram em sua vida, com a ajuda da graça, fazer a vontade de Deus, conhecida através do que lhes dita a consciência, podem conseguir a salvação eterna”[5].

3. Os motivos de credibilidade

“O motivo de crer não radica no fato de que as verdades reveladas apareçam como verdadeiras e inteligíveis à luz de nossa razão natural. Acreditamos ‘por causa da autoridade do próprio Deus revelador, que não pode enganar-Se nem enganar-nos'” (Catecismo, 156).

Entretanto, para que o ato de fé fosse conforme com a razão, Deus quis dar-nos “motivos de credibilidade que mostram que o assentimento da fé não é de modo algum um movimento cego do espírito”[6]. Os motivos de credibilidade são sinais certos de que a Revelação é palavra de Deus.

Estes motivos de credibilidade são, entre outros:

– a gloriosa ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, sinal definitivo de sua Divindade e prova certíssima da veracidade de Suas palavras;

– “os milagres de Cristo e de Seus santos (cf. Mc 16, 20; At 2, 4)” (Catecismo, 156)[7];

– o cumprimento das profecias (cf. Catecismo, 156), feitas sobre Cristo ou pelo próprio Cristo (por exemplo, as profecias sobre a Paixão de Nosso Senhor; a profecia sobre a destruição de Jerusalém etc.). Este cumprimento é prova da veracidade da Sagrada Escritura;

– a sublimidade da doutrina cristã é também prova de sua origem divina. Quem medita atentamente nos ensinamentos de Cristo pode descobrir, em sua profunda verdade, em sua beleza e em sua coerência, uma sabedoria que excede a capacidade humana de compreender e de explicar o que é Deus, o que é o mundo, o que é o homem, sua história e seu sentido transcendente;

– a propagação e a santidade da Igreja, sua fecundidade, sua estabilidade “são sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos” (Catecismo, 156).

Os motivos de credibilidade não são ajuda apenas a quem não tem fé para superar os preconceitos que obstaculizam o recebimento dela, mas também a quem tem fé, confirmando-lhe que é razoável crer e afastando-o do fideísmo.

4. O conhecimento de fé

A fé é um conhecimento: faz-nos conhecer verdades naturais e sobrenaturais. A aparente obscuridade que experimenta o crente é fruto da limitação da inteligência humana ante o excesso de luz da verdade divina. A fé é uma antecipação da visão de Deus “face a face” no Céu (1Cor 13, 12; cf. Jo 3, 2).

A certeza da fé: “A fé é certa, mais certa do que todo conhecimento humano, porque se fundamenta na própria palavra de Deus, que não pode mentir” (Catecismo, 157). “A certeza que dá a luz divina é maior do que a que dá a luz da razão natural”[8].

A inteligência ajuda o aprofundamento na fé. “É inerente à fé que o crente deseje conhecer melhor Aquele em quem depositou sua fé, e compreender melhor aquilo que lhe foi revelado; um conhecimento mais penetrante suscitará, por sua vez, uma fé maior, cada vez mais inflamada de amor” (Catecismo, 158).

A teologia é a ciência da fé: ela se esforça, com a ajuda da razão, por conhecer melhor as verdades que se possuem pela fé; não para torná-las mais luminosas em si mesmas – o que é impossível –, porém mais inteligíveis para o crente. Este afã, quando é autêntico, procede do amor a Deus e vai acompanhado pelo esforço por aproximar-se d’Ele. Os melhores teólogos têm sido e serão sempre santos.

5. Coerência entre fé e vida

Toda a vida do cristão deve ser manifestação de sua fé. Não há nenhum aspecto que não possa ser iluminado pela fé. “O justo vive da fé” (Rm 1, 17). A fé atua pela caridade (cf. Gl 5, 6). Sem as obras a fé está morta (cf. Tg 2, 20-26).

Quando falta esta unidade de vida e se transige com uma conduta que não está de acordo com a fé, esta, necessariamente, debilita-se e corre o perigo de perder-se.

Perseverança na fé: A fé é um dom gratuito de Deus. Mas, podemos perder este dom inestimável (cf. 1Tm 1, 18-19). “Para viver, crescer e perseverar até o fim na fé, devemos alimentá-la” (Catecismo, 162). Devemos pedir a Deus que nos aumente a fé (cf. Lc 17, 5) e que nos faça “fortes in fide” (1Pe 5, 9). Para isto, com a ajuda de Deus, é preciso fazer muitos atos de fé.

Todos os fiéis católicos estão obrigados a evitar os perigos para a fé. Entre outros meios, devem abster-se de ler as publicações que sejam contrárias à fé ou à moral – tanto se as tem assinaladas expressamente o Magistério, como se o adverte a consciência bem formada –, a menos que exista um motivo grave e se deem as circunstâncias que tornem essa leitura inócua.

Difundir a fé: “Não se acende uma luz para pô-la debaixo de um alqueire, mas sobre um candeeiro… Brilhe assim vossa luz diante dos homens” (Mt 5, 15-16). Recebemos o dom da fé para propagá-lo, não para ocultá-lo (cf. Catecismo, 166). Não se pode prescindir da fé na atividade profissional[9]. É preciso informar toda a vida social com os ensinamentos e o espírito de Cristo.

Bibliografia básica

Catecismo da Igreja Católica, 142-197.

Leituras recomendadas

São Josemaria, Homilia Vida de fé, em Amigos de Deus, 190-204.

[1] São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 2, a. 9.

[2] Cf. Concílio Vaticano II, Declar. Dignitatis humanae, 10; CIC, 748, §2.

[3] Concílio Vaticano I: DS 3017.

[4] São Cipriano, De catholicae unitate Ecclesiae: PL 4,503.

[5] Concílio Vaticano II, Const. Lumen gentium, 16.

[6] Concílio Vaticano I: DS 3008-3010; Catecismo, 156.

[7] O valor da Sagrada Escritura como fonte histórica totalmente confiável pode ser estabelecido com provas sólidas: por exemplo, as que se referem à sua antiguidade (vários dos livros do Novo Testamento foram escritos poucos anos depois da morte de Cristo, o que dá testemunho de seu valor), ou as que se referem à análise do conteúdo (que mostra a veracidade dos testemunhos).

[8] São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 171, a. 5, ad 3.

[9] Cf. São Josemaria, Caminho, 353.

“O dinheiro é inimigo da harmonia” – Papa Francisco

Por | PALAVRA DA IGREJA

Na homilia desta terça-feira, o Santo Padre convida a reler os Atos dos Apóstolos e entender como viviam as primeiras comunidades cristãs: ninguém passava necessidade porque tudo era comum.

Uma palavra sobre a qual é preciso um consenso – afirma o Papa no início da homilia – porque não se trata de uma concórdia qualquer, mas de um dom do céu para quem renasceu do Espírito Santo, como os primeiros cristãos:

“Nós podemos fazer acordos, uma certa paz… mas a harmonia é uma graça interior que somente o Espírito Santo pode promover. E estas comunidades viviam em harmonia, e os sinais da harmonia são dois: ninguém fica na necessidade, porque tudo era em comum. Em que sentido? Tinham um só coração, uma só alma e ninguém considerava o que lhe pertencia como propriedade, porque tudo era em comum. Ninguém deles era carente. A verdadeira ‘harmonia’ do Espírito Santo tem uma relação muito forte com o dinheiro: o dinheiro é inimigo da harmonia; o dinheiro é egoísta e, por isso, todos davam o que tinham para que não faltasse nada a ninguém”.

O Papa se detém sobre este aspecto e repete o exemplo virtuoso oferecido pelo trecho dos Atos, o de Barnabé, que vende sua terra e entrega o dinheiro aos Apóstolos. No entanto, os versículos seguintes, não incluídos na leitura do dia, propõem outro episódio, oposto ao primeiro, que Francisco cita: o de Ananias e Safira, um casal que finge dar o arrecadado com venda de suas terras, mas na realidade retém uma parte do dinheiro; uma escolha que para eles terá um preço muito amargo, a morte. Deus e o dinheiro são dois patrões “cujo serviço é irreconciliável”, repete Francisco, que logo depois esclarece também o equívoco que pode surgir sobre o conceito de ‘harmonia’. Não se trata – afirma – de ‘tranquilidade’.

“Uma comunidade pode ser muito tranquila, em que tudo vai bem: tudo funciona… Mas não está em harmonia. Uma vez, ouvi dizer de um bispo algo muito sábio: ‘Na diocese há tranquilidade. Mas se você tocar um problema, ou este ou aquele outro problema, logo começa a guerra’. Esta seria uma harmonia negociada, e esta não é a do Espírito Santo. É uma harmonia – digamos – hipócrita, como aquela de Ananias e Safira com aquilo que fizeram”.

Francisco conclui convidando à releitura dos Atos dos Apóstolos sobre os primeiros cristãos e sua vida em comum. “Nos fará bem”, disse ele, para entender como testemunhar a novidade em todos os ambientes em que se vive. Consciente de que, assim como para a harmonia, também no empenho do anúncio se colhe o sinal de outro dom:

“A harmonia do Espirito Santo nos dá esta generosidade de não ter nada próprio enquanto há alguém necessitado. A harmonia do Espírito Santo nos dá uma segunda postura: ‘Com grande força, os apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus, e todos regojizavam de grande favor’, isto é, de coragem. Quando existe harmonia na Igreja, na comunidade, existe coragem, a coragem de testemunhar o Senhor Ressuscitado”. (Fonte: Rádio Vaticano)