Um consagrado não pode ser inconsciente, tudo deve estar na luz.

Conhecer e assumir o que vivemos com nossos irmãos de sangue é fundamental: vamos defrontar-nos, com a comparação no afeto, com o reconhecimento dado mais a um do que a outro, com o problema das transferências… O lugar que ocupamos no meio dos irmãos é de evidente importância.

É impossível evitar a vivência de movimentos perturbadores, recorrentes, dolorosos. Eles são normais, inevitáveis; trata-se, porém de ultrapassá-los e de aprender a viver um relacionamento bem ordenado, de forma adequada. As feridas vividas no relacionamento entre irmãos permanecem com frequência muito distante, muito longínqua, intimamente escondida, e esse fato torna-se fonte de infecção das mesmas feridas.

A Bíblia está cheia de histórias de irmãos rivais, em que um quer apoderar-se do que pertence ao outro ou ser beneficiário de tudo que é dado ao outro. Caim, cuja oferta não é aceita por Deus como é a de Abel, mata seu irmão(Gn 4,3-8). Jacó, o irmão caçula, logra e engana seu pai Isaac, para apoderar-se da benção reservada a seu irmão Esaú (Gn 27,1-29). Os irmãos de José vêem que seu pai Jacó amava-o mais do que a todos os seus outros filhos e odiaram-no… Terminaram por lançá-lo numa cisterna no deserto. (Gn 37,12-25).

Entramos na consagração de vida com tudo que temos e somos, de fato, na vida secular os relacionamentos são mais autônomos e dispersos, já na vivência fraterna as relações são intensas, assim, mais facilmente sobem as tensões.

Na maioria das vezes ninguém imagina as trevas que carrega dentro de suas profundezas inconscientes em relação aos irmãos. Por isso “sobe”  o ciúme que, até então estava escondido, a competição, a inveja, as murmurações contra o outro e toda espécie de desequilíbrios.

Os discípulos de Jesus não estão isentos da competição: “Sobre o que discutíeis no caminho?” “Ficaram em silêncio porque no caminho vinham discutindo sobre qual era o maior”(Mc 9, 33-34)

A inveja, a competição, o ciúme dos fariseus e dos doutores da lei em relação a Jesus acarretam a sua morte, sendo ele um inocente. Mas Jesus atravessou a morte de tal maneira que matou o ódio (Ef 2,14-16), reintroduzindo definitivamente o amor no mundo.

O primeiro passo para a cura é dar-se conta, acolher a verdade da própria fraqueza e entregar-se nos braços de Deus, só Ele pode curar pela força de sua graça e através dos Sacramentos da Igreja; usufrua dos Sacramentos: confesse, comungue, clame a renovação do Batismo e receberás nas profundezas de sua alma a força para vencer o ciúme, a inveja e todo tipo de vício diabólico que ali possa ter se refugiado. Além disso faça memória dos acontecimentos da infância, adolescência e juventude que envolveram seus irmãos, reconcilie-se com sua história e a cura será verdadeiramente consistente.

Texto base: PACOT, Simone. “A Evangelização das Profundezas”, Editora Santuário.