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PALAVRA DA IGREJA

Catequese do Papa sobre a importância do perdão e da doação. Confira!

Por | PALAVRA DA IGREJA

O Papa Francisco dedicou a catequese da Audiência Geral desta quarta-feira ao perdão e à doação, ou seja, de ajudar e ser generosos com aqueles que necessitam.

“Se Deus me perdoou, por que não devo eu perdoar os outros? Sou maior que Deus? Esse pilar do perdão nos mostra a gratuidade do amor de Deus, que nos amou primeiro. Julgar e condenar o irmão que peca é errado”, disse Francisco.

A seguir, confira o texto completo da catequese:

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Escutamos o trecho do Evangelho de Lucas (6, 36-38) do qual foi tirado o mote deste Ano Santo Extraordinário: Misericordiosos como o Pai. A expressão completa é: “Sejais misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (v. 36). Não se trata de um slogan de efeito, mas de um compromisso de vida. Para compreender bem esta expressão, podemos confrontá-la com aquela paralela do Evangelho de Mateus, onde Jesus diz: “Sede perfeitos assim como vosso Pai Celeste é perfeito” (5, 48). No discurso da montanha, que se abre com as Bem-Aventuranças, o Senhor ensina que a perfeição consiste no amor, cumprimento de todos os preceitos da Lei. Nesta mesma perspectiva, São Lucas explicita que a perfeição é o amor misericordioso: ser perfeito significa ser misericordioso. Uma pessoa que não é misericordiosa é perfeita? Não! Uma pessoa que não é misericordiosa é boa? Não! A bondade e a perfeição estão enraizadas na misericórdia. Certo, Deus é perfeito. Todavia, se o consideramos assim, torna-se impossível para os homens tender àquela absoluta perfeição. Em vez disso, tê-lo diante dos olhos como misericordioso nos permite compreender melhor em que consiste a sua perfeição e nos estimula a ser como Ele, plenos de amor, de compaixão, de misericórdia.

Mas me pergunto: as palavras de Jesus são realistas? É realmente possível amar como Deus ama e ser misericordioso como Ele?

Se olhamos a história da salvação, vemos que toda a revelação de Deus é um incessante e inesgotável amor pelos homens: Deus é como um pai ou como uma mãe que ama com insondável amor e o derrama com abundância sobre cada criatura. A morte de Jesus na cruz é o ápice da história do amor de Deus com o homem. Um amor tão grande que somente Deus pode realizar. É evidente que, comparado a este amor que não tem medida, o nosso amor sempre parecerá em falta. Mas quando Jesus nos pede para sermos misericordiosos como o Pai, não pensa na quantidade! Ele pede aos seus discípulos para se tornarem sinal, dar testemunho da sua misericórdia.

E a Igreja não pode ser outra coisa que não sacramento da misericórdia de Deus no mundo, em todo tempo e para toda a humanidade. Cada cristão, portanto, é chamado a ser testemunha da misericórdia e isso acontece no caminho de santidade. Pensemos em quantos santos se tornaram misericordiosos porque deixara encher seu coração com a divina misericórdia. Deram corpo ao amor do Senhor derramando-o nas múltiplas necessidades da humanidade sofredora. Neste florescer de tantas formas de caridade é possível ver os reflexos da face misericordiosa de Cristo.

Perguntemo-nos: o que significa para os discípulos ser misericordiosos? É explicado por Jesus em dois verbos: “perdoar” (v. 37) e “doar” (v. 38).

A misericórdia se exprime, antes de tudo, no perdão: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (v. 37). Jesus não pretende subverter o curso da justiça humana, todavia recorda aos discípulos que para ter relações fraternas é necessário suspender julgamentos e condenações. É o perdão, de fato, o pilar que rege a vida da comunidade cristã, porque nisso se mostra a gratuidade do amor com que Deus nos amou primeiro. O cristão deve perdoar! Mas por que? Porque foi perdoado.

Todos nós que estamos aqui hoje, na praça, fomos perdoados. Nenhum de nós, na própria vida, não teve necessidade do perdão de Deus. E porque nós fomos perdoados, devemos perdoar. Rezamos todos os dias no Pai Nosso: “Perdoai os nossos pecados; perdoai os nossos pecados assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Isso é, perdoar as ofensas, perdoar tantas coisas, porque nós fomos perdoados por tantas ofensas, por tantos pecados. E assim é fácil perdoar: se Deus me perdoou, por que não devo eu perdoar os outros? Sou maior que Deus? Esse pilar do perdão nos mostra a gratuidade do amor de Deus, que nos amou primeiro. Julgar e condenar o irmão que peca é errado. Não porque não se queira reconhecer o pecado, mas porque condenar o pecador quebra o laço de fraternidade com ele e despreza a misericórdia de Deus que, em vez disso, não quer renunciar a nenhum dos seus filhos. Não temos o poder de condenar o nosso irmão que erra, não somos mais que ele: temos, em vez disso, o dever de recuperá-lo à dignidade de filho do Pai e de acompanhá-lo no seu caminho de conversão.

À sua Igreja, a nós, Jesus indica também um segundo pilar: “doar”. Perdoar é o primeiro pilar; doar é o segundo pilar. “Da e vos será dado […] com a mesma medida com que medirdes sereis medidos também” (v. 38). Deus dá bem além dos nossos méritos, mas será ainda mais generoso com quantos aqui na terra foram generosos. Jesus não diz o que acontecerá àqueles que não dão, mas a imagem da “medida” constitui um aviso: com a medida do amor que damos, somos nós mesmos a decidir como seremos julgados, como seremos amados. Se olharmos bem, há uma lógica coerente: na medida em que se recebe de Deus, se doa ao irmão, e na medida em que se doa ao irmão, se recebe de Deus!

O amor misericordioso é, por isso, a única via a percorrer. Quanta necessidade todos nós temos de ser um pouco mais misericordiosos, de não falar mal dos outros, de não julgar, de não falar mal com críticas, com inveja, com ciúmes. Devemos perdoar, ser misericordiosos, viver a vida no amor. Este amor permite aos discípulos de Jesus não perder a identidade recebida Dele e de reconhecer-se como filhos do mesmo Pai. No amor que esses praticam na vida se reflete assim aquela Misericórdia que nunca terá fim (cfr. 1 Cor 13, 1-12). Mas não se esqueçam disso: a misericórdia e o dom; perdão e dom. Assim, o coração se alarga, se alarga no amor. Em vez disso, o egoísmo, a raiva, tornam o coração pequeno, que se endurece como uma pedra. O que vocês preferem? Um coração de pedra ou um coração de amor? Se preferem um coração cheio de amor, sejam misericordiosos!

Papa exorta a acolher a oportunidade de ser solidários

Por | PALAVRA DA IGREJA

Vídeo de intenções de oração: Papa exorta a acolher a oportunidade de ser solidários

Nesta segunda-feira 5 de setembro, primeira vez que a Igreja Católica celebra a festa de Santa Teresa de Calcutá, foi divulgado o nono vídeo de 2016 das intenções de oração do Papa Francisco, no qual ele exorta a acolher a oportunidade de ser solidários e que a sociedade ponha no seu centro a pessoa humana.

No vídeo, o Santo Padre afirma que “a humanidade vive uma crise que não é apenas econômica e financeira; também é ecológica, educativa, moral, humana. Quando falamos de crise, falamos de perigos, mas também de oportunidades”.

“Qual é a oportunidade? Ser solidários: Vem, ajuda-me. Para que cada um contribua para o bem comum e para a edificação de uma sociedade que ponha no seu centro a pessoa humana”.

Estes vídeos mensais são produzidos pela Rede Mundial de Oração do Papa.

A Santa Sé informou também que a intenção evangelizadora do Papa Francisco para este mês é a seguinte: “Para que os cristãos, participando nos Sacramentos e meditando a Sagrada Escritura, se tornem cada vez mais conscientes da sua missão evangelizadora”.

“O matrimônio está em crise porque não sabem o que é o sacramento”.

Por | PALAVRA DA IGREJA

Ao terminar o seu discurso na abertura do Congresso diocesano em São João de Latrão o Papa respondeu as perguntas de um sacerdote e dois catequistas sobre família, doutrina, preparação ao matrimônio…

Individualismo, respeito à doutrina, crises do matrimônio. Foram estes os temas abordados em São João de Latrão pelo Papa Francisco ao responder de forma coloquial as perguntas de um sacerdotes e dois catequistas ao final do seu discurso inaugural no Congresso Diocesano de Roma dedicado à família.

O Bispo de Roma seguiu as ideias evocadas no discurso feito antes, deixando mais clara as suas indicações por meio de descrições de exemplos concretos. Como aqueles que testemunham o individualismo, uma ameaça para a família.

Recordou que quando era arcebispo de Buenos Aires, em uma diocese vizinha alguns párocos rejeitavam batizar as crianças de mães meninas. Fruto do individualismo, de acordo com o Papa, da mesma forma que aquele “amaldiçoado bem-estar” que é causa da “terrível” queda demográfica na Itália. “Mas isso começou com aquela cultura do bem-estar, de algumas décadas…”, comenta.

E volta a um problema abordado também recentemente, o de quem prefere ter animais a dar a vida a um filho: “Conheci muitas famílias que preferiam – mas, por favor, não me acusem os defensores dos animais, porque não quero ofender ninguém – preferiam ter dois ou três gatos, um cachorro, em vez de um filho. Porque fazer um filho não é fácil, e depois, leva-lo adiante… Mas, o que mais se torna um desafio com um filho é que se faz uma pessoa que se tornará livre. O cão, o gato, te darão um afeto, mas um afeto “programado”, até um certo ponto, não livre. Se se tem um, dois, três, quatro filhos, serão livres e irão pela vida com os riscos da vida. Este é o desafio que dá medo: a liberdade”.

Precisamente da liberdade – é a opinião do Papa Bergoglio – tem medo o individualismo. Pelo contrário, convidou a preferir uma pastoral em que não se tenha medo de arriscar. “A partir do momento em que você está lá e deve decidir, corre risco! Se errar, aí está o confessor, o bispo, mas corre o risco!”.

Individualismo que demonstrou rejeitar a família de um embaixador, que recentemente foi à Santa Sé para apresentar cartas credenciais ao Papa. Francisco fala que o diplomático, junto com a família, levou a empregada doméstica. “É um exemplo – disse – . Isso é dar lugar às pessoas”.

A este gesto está intimamente ligado o conceito de ternura, a linguagem que se usa com as crianças, feita de carícias e de voz doce. “É a estrada que percorreu Jesus – continua – . Jesus não considerou um privilégio ser Deus: abaixou-se. E falou com a nossa língua, e falou com os nossos gestos”.

Na segunda pergunta o Papa foi questionado sobre o risco de uma dupla moral nas paróquias: de um lado o “rigorismo” e do outro o “laxismo”. De acordo com Bergoglio “ambos não são verdade”. Ele explica que o “Evangelho escolhe outro caminho”, o de Jesus que fala com a samaritana ou com a adúltera. “Isso significa – afirma – buscar a verdade; e que a moral é um ato de amor, sempre: amor a Deus, amor ao próximo. É também um ato que deixa espaço à conversão do outro, não condena rápido, deixa espaço”.

O Santo Padre, em resposta à terceira questão, entra na questão da crise do matrimônio, chamando a atenção sobre a educação dos jovens.

Ele acredita que “uma parte dos nossos matrimônios sacramentais são nulos”, em quanto que os esposos prometem fidelidade por toda a vida, enquanto na verdade “não sabem o que dizem, porque têm uma outra cultura. Dizem-no, e têm a boa vontade, mas não têm a consciência”.

O parecer de Bergoglio é que “um dos problemas” seja “a preparação para o matrimônio”. Além disso – acrescenta – “a crise do matrimônio é porque não se sabe o que é o sacramento, a beleza do sacramento: não se sabe que é indissolúvel, não se sabe que é para toda a vida”.

O Papa, em seguida, passa um conselho para aqueles que já são casados que “não terminem o dia sem fazer as pazes porquês a guerra fria do dia seguinte é pior. É pior, sim, é pior”.

Por fim, o Papa destaca que é dever ter paciência na pastoral do matrimônio, bem como na pastoral das vocações. Convida a ouvir: “o apostolado da escuta, ouvir, acompanhar…”.

A missão do cristão é testemunhar com alegria e humildade o Evangelho

Por | PALAVRA DA IGREJA

O Papa Francisco comentou o Evangelho do dia e, em seguida, rezou a oração do Ângelus com milhares de fiéis reunidos na Praça de São Pedro, lhes disse que a verdadeira missão do cristão é testemunhar com alegria o Evangelho.

O Papa disse que “a missão do cristão no mundo é maravilhosa e destinada a todos, é uma missão de serviço, ninguém está excluído; essa requer muita generosidade e, sobretudo, o olhar e o coração dirigidos ao alto, para invocar a ajuda do Senhor.” “Há tanta necessidade de cristãos que testemunhem com alegria o Evangelho na vida de todos os dias”.

Francisco disse que é necessário invocar a Deus para que mande operários para a sua messe. Os “operários” de que fala Jesus são os missionários do Reino de Deus, explicou o Papa. E sua tarefa é anunciar uma mensagem de salvação dirigida a todos, dizendo: “O Reino de Deus está próximo”.

“Os missionários anunciam sempre  uma mensagem de salvação a todos. Não só os missionários que estão longe, nós, missionários cristãos, pronunciamos  uma bela  mensagem de salvação. Este é o dom que Jesus nos dá através do Espírito Santo.

“Jesus aproximou Deus de nós; em Jesus, Deus reina em meio a nós, o seu amor misericordioso vence o pecado e a miséria humana”, prosseguiu.

Em seguida, Francisco disse: “Esta é a Boa Nova que os “operários” devem levar a todos: uma mensagem de esperança e consolação, de paz e de caridade”.

“O Reino de Deus se constrói dia após dia e oferece já sobre esta terra os seus frutos de conversão, de purificação, de amor e de consolação entre os homens”.

O Pontífice também explicou que o discípulo de Jesus deve desempenhar esta missão consciente da realidade difícil e, às vezes, hostil que o aguarda.

Por isso, o operário do Evangelho se esforçará em ser livre de condicionamentos humanos de todo gênero, confiando somente na potência da Cruz de Cristo”.

Francisco acrescentou que “isto significa abandonar qualquer motivo de orgulho pessoal e tornar-se  instrumento humilde da salvação realizada pelo sacrifício de Jesus, morto e ressuscitado por nós.”

O Santo Padre concluiu pedindo ao Espírito Santo que “todos os batizados deem testemunho de Cristo, construtores de comunidades cristãs repletas de fé e caridade, renovadoras do mundo conforme o Evangelho”.

Depois de rezar e saudar os peregrinos, o Papa recordou seguidamente a solenidade de Santa Maria Goretti: “No Ano Santo da Misericórdia tenho a peito recordar que quarta-feira próxima celebraremos a memória de Santa Maria Goretti, a menina mártir que antes de morrer perdoou o seu assassino. E esta menina corajosa merece um aplauso de toda a Praça!”, concluiu.

Iuvenescit Ecclesia: documento na íntegra

Por | PALAVRA DA IGREJA

Congregação para a doutrina da fé

Carta Iuvenescit Ecclesia aos Bispos da Igreja católica

SOBRE A RELAÇÃO ENTRE DONS HIERÁRQUICOS E CARISMÁTICOS

PARA A VIDA E MISSÃO DA IGREJA

INTRODUÇÃO

Os dons do Espírito Santo na Igreja em missão

1.         A Igreja rejuvenesce com a força do Evangelho e o Espírito Santo renova-a continuamente, edificando-a e guiando-a “com diversos dons hierárquicos e carismáticos”[1]. O Concílio Vaticano II pôs repetidamente em relevo a obra maravilhosa do Espírito Santo que santifica o Povo de Deus, guia-o, adorna-o de virtudes e enriquece-o de graças especiais em vista da sua edificação. A ação do divino Paráclito na Igreja é multiforme, como amam evidenciar os Padres. Escreve João Crisóstomo: «Quais são as graças que operam a nossa salvação que não nos são concedidas pelo Espírito Santo? Por seu intermédio, somos libertos da escravidão e chamados à liberdade, somos conduzidos à adoção filial e, por assim dizer, formados de novo, após ter deposto o pesado e odioso fardo dos nossos pecados. Pelo Espírito Santo, vemos assembleias de sacerdotes e possuímos multidões de doutores; desta nascente brotam dons de revelação, graças de cura e todos os outros carismas que adornam a Igreja de Deus»[2]. Graças à mesma vida da Igreja, às numerosas intervenções do Magistério e à investigação teológica, felizmente cresceu a consciência da multiforme ação do Espírito Santo na Igreja, despertando assim uma atenção particular aos dons carismáticos, dos quais, em todo o tempo, o povo de Deus se enriqueceu para o desenvolvimento da sua missão.

A tarefa de comunicar eficazmente o Evangelho torna-se particularmente urgente no nosso tempo. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, recorda que «se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida»[3]. O convite a ser Igreja «em saída» leva a reler de toda a vida cristã em chave missionária[4]. A tarefa de evangelizar diz respeito a todos os âmbitos da Igreja: a pastoral ordinária, o anúncio àqueles que abandonaram a fé cristã e particularmente àqueles que ainda não foram alcançados pelo Evangelho de Jesus ou que sempre o recusaram[5]. Neste trabalho imprescindível de nova evangelização é mais do que necessário reconhecer e valorizar os numerosos carismas capazes de despertar e alimentar a vida de fé do povo de Deus.

As multiformes agregações eclesiais

2.         Tanto antes como depois do Concílio Vaticano II, surgiram numerosas agregações eclesiais que constituem uma grande fonte de renovação para a Igreja e para a urgente «conversão pastoral e missionária»[6] de toda a vida eclesial. Ao valor e à riqueza de todas as realidades associativas tradicionais, caraterizadas por propósitos particulares, bem como dos Institutos de vida consagrada e Sociedades de vida apostólica, juntam-se aquelas realidades mais recentes que podem ser descritas como agregações de fiéis, movimentos eclesiais e novas comunidades, sobre as quais se detém o presente documento. Estas não podem ser entendidas simplesmente como um associar-se voluntário de pessoas que desejam alcançar um objetivo particular de caráter religioso ou social. O caráter de «movimento» distingue-os dentro do panorama eclesial enquanto realidades fortemente dinâmicas, capazes de suscitar particular atração pelo Evangelho e de sugerir uma proposta de vida cristã tendencialmente global que abarca todos os aspetos da existência humana. O agregar-se dos fiéis com uma forte partilha de vida, com a intenção de incrementar a vida de fé, esperança e caridade, exprime bem a dinâmica eclesial como mistério de comunhão para a missão e manifesta-se como um sinal de unidade da Igreja em Cristo. Neste sentido, estas agregações eclesiais, com origem num carisma partilhado, tendem a ter como propósito «o fim apostólico geral da Igreja»[7]. Nesta perspetiva, agregações de fiéis, movimentos eclesiais e novas comunidades propõem formas renovadas de seguimento de Cristo, de modo a aprofundar a communio cum Deo e a communio fidelium, levando a novos contextos sociais o fascínio do encontro com o Senhor Jesus e a beleza da existência cristã vivida na sua integralidade. Nestas realidades, exprime-se também uma peculiar forma de missão e de testemunho, com o objetivo de favorecer e desenvolver, quer uma consciência viva da própria vocação cristã, quer itinerários estáveis de formação cristã, quer ainda percursos de perfeição evangélica. Podem participar nestas realidades agregativas, de acordo com os diversos carismas, fiéis de estados de vida distintos (leigos, ministros ordenados e pessoas consagradas), manifestando desta forma a pluriforme riqueza da comunhão eclesial. A forte capacidade agregativa destas realidades representa um testemunho significativo de como a Igreja não cresce «por proselitismo mas por “atração”»[8].

João Paulo II, dirigindo-se aos representantes dos movimentos e das novas comunidades fez questão de reconhecer neles uma «resposta providencial»[9] suscitada pelo Espírito Santo perante a necessidade de comunicar de modo persuasivo o Evangelho por todo o mundo, tendo em consideração os grandes processos de transformação existentes a nível planetário, marcados frequentemente por uma cultura fortemente secularizada. Tal fermento do Espírito «trouxe à vida da Igreja uma novidade inesperada, e por vezes até explosiva»[10]. O mesmo Pontífice recordou que se abre a todas estas agregações eclesiais o tempo da «maturidade eclesial», o qual implica a sua plena valorização e inserção «nas Igrejas locais e nas paróquias, sempre permanecendo em comunhão com os Pastores e atentos às suas indicações»[11]. Estas novas realidades, por cuja existência o coração da Igreja se enche de alegria e gratidão, são chamadas a relacionar-se de forma positiva com todos os outros dons presentes na vida eclesial.

Objetivo do presente documento

3.         A Congregação para a Doutrina da Fé, com o presente documento, deseja referir-se, à luz da relação entre dons hierárquicos e carismáticos, aos elementos teológicos e eclesiológicos cuja compreensão possa favorecer uma fecunda e ordenada participação das novas agregações na comunhão e missão da Igreja. Com este objetivo, serão primeiramente apresentados alguns elementos chave, quer da doutrina sobre os carismas presente no Novo Testamento quer da reflexão do Magistério sobre estas novas realidades. De seguida, partindo de alguns princípios de ordem teológico-sistemática, serão oferecidos elementos identitários dos dons hierárquicos e carismáticos juntamente com alguns critérios para o discernimento das novas agregações eclesiais.

I. OS CARISMAS SEGUNDO O NOVO TESTEMENTO

Graça e carisma

4.         «Carisma» é a transcrição da palavra grega chárisma, cujo uso é frequente nas cartas paulinas e aparece também na Primeira Carta de Pedro. Tem o sentido genérico de «dom generoso» e no Novo testamento é usado somente em relação a dons divinos. Em algumas passagens, o contexto confere-lhe um sentido mais específico (cf. Rm 12, 6; 1 Cor 12, 4. 31; 1 Pe 4, 10), cujo traço fundamental é a distribuição diferenciada de dons[12]. Esse é também o significado preponderante nas línguas modernas da palavra derivada deste vocábulo grego. Um carisma não é um dom distribuído por todos (cf. 1 Cor 12, 30), diferentemente das graças fundamentais, como seja a graça santificante ou os dons da fé, da esperança e da caridade, que são indispensáveis a todo o cristão. Os carismas são dons particulares que o Espírito Santo distribui «como lhe apraz» (1 Cor 12, 11). Para explicitar a necessária presença dos diversos carismas na Igreja, os dois textos mais explícitos (Rm 12, 4-8; 1 Cor 12, 12-30) utilizam a comparação do corpo humano: «É que, como num só corpo, temos muitos membros, mas os membros não têm todos a mesma função, assim acontece connosco: os muitos que somos formamos um só corpo em Cristo, mas, individualmente, somos membros que pertencem uns aos outros. Temos dons que, consoante a graça que nos foi dada, são diferentes» (Rm 12, 4-6). A diversidade entre os membros do corpo não é uma anomalia a evitar. Pelo contrário, é uma necessidade benéfica que torna possível o cumprimento das diversas funções vitais. «Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Há, pois, muitos membros, mas um só corpo» (1 Cor 12, 19-20).  Paulo, em Rm 12, 6, e Pedro, em 1 Pe 4, 10[13], atestam uma estreita relação entre os carismas particulares (charísmata) e a graça (cháris) de Deus. Os carismas são reconhecidos como uma manifestação da «multiforme graça de Deus». Não se trata, portanto, de meras capacidades humanas. A sua origem divina expressa-se de diversas formas: de acordo com alguns textos, eles provêm de Deus (cf. Rm 12, 3; 1 Cor 12, 28; 2 Tim 1, 6; 1 Pe 4, 10); segundo Ef 4, 7, provêm de Cristo; segundo 1 Cor 12, 4-11, do Espírito. Uma vez que esta última passagem é a mais insistente (nomeia sete vezes o Espírito), os carismas são habitualmente apresentados como «manifestações do Espírito» (1 Cor 12, 7). É claro, no entanto, que esta atribuição não é exclusiva nem contradiz as duas precedentes. Os dons de Deus implicam sempre todo o horizonte trinitário, como sempre foi afirmado pela teologia desde os seus inícios, tanto no ocidente como no oriente[14].

Dons dispensados «ad utilitatem» e o primado da caridade

5. Em 1 Cor 12, 7, Paulo declara que «a cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito». Muitos tradutores acrescentam: «para proveito comum», porque a maioria dos carismas mencionados pelo Apóstolo, ainda que nem todos, têm diretamente um proveito comum. Esta finalidade à edificação de todos foi bem compreendida, por exemplo por Basílio Magno, quando diz: «Cada um recebe estes dons mais para os outros que para si mesmo […]. Na vida comum é necessário que a força do Espírito Santo dada a um seja transmitida a todos. Quem vive para si próprio, talvez possa ter um carisma, mas torna-o inútil ao conservá-lo inativo, porque o enterrou dentro de si mesmo»[15]. De qualquer modo, Paulo não exclui que um carisma possa ser útil somente à pessoa que o recebeu. Tal é o exemplo de falar em línguas, diferente neste caso do dom da profecia[16]. Os carismas que têm uma utilidade comum, sejam carismas de palavra (de sabedoria, de conhecimento, de profecia, de exortação) ou de ação (de autoridade, de ministério, de governo), têm também uma utilidade pessoal, uma vez que o seu exercício em prol do bem comum favorece o progresso na caridade em quem os possui. A este propósito, Paulo observa que, se não houver caridade, nem os carismas mais elevados são úteis à pessoa que os recebe (cf. 1 Cor 13, 1-3). Uma passagem severa do Evangelho de Mateus (Mt 7, 22-23) exprime a mesma realidade: o exercício de carismas vistosos (profecias, exorcismos, milagres) infelizmente pode coexistir com a ausência de uma relação autêntica com o Salvador. Por conseguinte, tanto Pedro como Paulo insistem na necessidade de orientar todos os carismas para a caridade. Pedro oferece uma regra geral: «Como bons administradores das várias graças de Deus, cada um de vós ponha ao serviço dos outros o dom que recebeu» (1 Pe 4, 10). Paulo preocupa-se particularmente com o uso dos carismas nos encontros da comunidade cristã e afirma: «que tudo se faça de modo a edificar» (1 Cor 14, 26).

A variedade dos carismas

6. Em alguns textos encontramos um elenco de carismas, umas vezes de forma sumária (cf. 1 Pe 4, 10), outras vezes de forma mais detalhada (cf. 1 Cor 12, 8-10. 28-30; Rm 12, 6-8). Dentre os elencados, estão dons excecionais (de cura, de obras de autoridade, de variedade de línguas) e dons ordinários (de ensino, de serviço, de beneficência), ministérios para a condução das comunidades (cf. Ef 4, 11) e dons concedidos por meio da imposição das mãos (cf. 1 Tm 4, 14; 2 Tm 1, 6). Nem sempre é claro que todos estes dons sejam considerados «carismas» propriamente ditos. Os dons excecionais, mencionados repetidamente em 1 Cor 12-14, de facto desaparecem dos textos posteriores; o elenco de Rm 12, 6-8 apresenta somente carismas menos vistosos que possuem uma utilidade constante para a vida da comunidade cristã. Nenhum desses elencos pretende ser exaustivo. Noutro local, por exemplo, Paulo sugere que a opção pelo celibato por amor de Cristo seja vista como fruto de um carisma, tal como a opção pelo matrimónio (cf. 1 Cor 7, 7, no contexto de todo o capítulo). Ambas são exemplos que dependem do grau de desenvolvimento atingido pela Igreja daquela época e que, por isso, são suscetíveis de acrescentos posteriores. A Igreja, de facto, cresce sempre no tempo graças à ação vivificante do Espírito.

O bom exercício dos carismas na comunidade eclesial

7.         De tudo o que foi observado, torna-se evidente que não existe nos textos escriturísticos uma oposição entre os vários carismas, mas antes harmoniosa conexão e complementaridade. A antítese entre uma Igreja institucional de tipo judeo-cristão e uma Igreja carismática de tipo paulino, afirmada por algumas interpretações eclesiológicas redutoras, na verdade não encontra um fundamento adequado nos textos do Novo Testamento. Longe de colocar os carismas de um lado e as realidades institucionais de outra, ou de opor uma Igreja “da caridade” a uma Igreja “da instituição”, Paulo recolhe num único elenco aqueles que possuem carismas de autoridade e ensino, de carismas que são úteis à vida ordinária da comunidade e carismas mais clamorosos[17]. O mesmo Paulo descreve o seu ministério de apóstolo como «ministério do Espírito» (2 Cor 3, 8). Ele sente-se investido de autoridade (exousía) dada pelo Senhor (cf. 2 Cor 10, 8; 13, 10), uma autoridade que se alarga inclusive aos confrontos com os carismáticos. Tanto ele como Pedro dão instruções aos carismáticos sobre o modo como exercer os carismas. A sua atitude é acima de tudo de acolhimento favorável; estão convictos da origem divina dos carismas; no entanto, não os consideram como dons que permitam a dispensa de obediência à hierarquia eclesial ou confiram o direito a um ministério autónomo. Paulo tem consciência dos inconvenientes que um exercício desordenado dos carismas pode provocar na comunidade cristã[18]. Por isso, o apóstolo intervém com autoridade para estabelecer regras precisas sobre o exercício dos carismas «na Igreja» (1 Cor 14, 19.28), ou seja nos encontros da comunidade (cf. 1 Cor 14, 23.26). Por exemplo, ele limita o uso da glossolalia[19]. Regras semelhantes são apresentadas também para o dom da profecia (cf. 1 Cor 14, 29-31)[20]

Dons hierárquicos e carismáticos

8.         Em síntese, partindo de uma análise dos textos bíblicos sobre os carismas, fica claro que o Novo Testamento, ainda que não oferecendo uma doutrina sistemática completa, apresenta afirmações de grande importância que orientam a reflexão e a praxis eclesial. Deve-se ainda reconhecer que o termo “carisma” não é aí usado de forma unívoca; é, pelo contrário, importante constatar uma variedade de significados que a reflexão teológica e o Magistério ajudam a compreender no âmbito de uma visão complexiva do mistério da Igreja. No presente documento, a atenção é colocada sobre o binómio posto em destaque no nº 4 da Constituição dogmática Lumen gentium, onde se fala de «dons hierárquicos e carismáticos» e das suas estreitas e articuladas conexões. Eles têm a mesma origem e o mesmo propósito. São dons de Deus, do Espírito Santo, de Cristo, dados com a finalidade de contribuir, de formas diversas, para a edificação da Igreja. Quem recebeu o dom de governar na Igreja tem também a missão de vigiar sobre o bom exercício dos outros carismas, de modo que tudo concorra para o bem da Igreja e para a sua missão evangelizadora, sabendo que é o Espírito Santo que distribui os dons carismáticos por cada um, da forma que lhe apraz (cf. 1 Cor 12, 11). O mesmo Espírito dá á hierarquia da Igreja a capacidade de discernir os carismas autênticos, de os acolher com alegria e gratidão, de os promover com generosidade e de os acompanhar com paternidade vigilante. A própria história testemunha a multiforme ação do Espírito, mediante a qual a Igreja, edificada «sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus» (Ef 2, 20), vive a sua missão no mundo.

II – A RELAÇÃO ENTRE DONS HIERÁRQUICOS E CARISMÁTICOS NO MAGISTÉRIO RECENTE

O Concílio Vaticano II

9. O aparecimento dos diferentes carismas nunca deixou de se fazer sentir ao longo da secular história da Igreja e, no entanto, somente nos tempos mais recentes é que se desenvolveu uma reflexão sistemática sobre eles. A este respeito, é dado um espaço significativo à doutrina dos carismas no Magistério expresso por Pio XII na Carta encíclica Mystici corporis[21], enquanto que os ensinamentos do Vaticano II avançam com um passo significativo para uma compreensão adequada sobre a relação entre os dons hierárquicos e carismáticos. As passagens relevantes a este respeito[22], além de fazerem referência à Palavra de Deus, escrita e transmitida, aos Sacramentos e ao ministério hierárquico ordenado na vida da Igreja, referem também a presença de dons, de graças especiais ou carismas, derramados pelo Espírito entre os fiéis de todas as condições. A passagem emblemática a este respeito é-nos oferecida pela Lumen gentium, n. 4: «O Espírito […] conduz a Igreja à verdade total (cf. Jo 16, 13) e unifica-a na comunhão e no ministério, enriquece-a e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos e adorna-a com os seus frutos (cf. Ef 4, 11-12; 1 Cor 12, 4; Gál 5, 22)[23]. Desta forma, a Constituição dogmática Lumen gentium, ao apresentar os dons do mesmo Espírito, sublinha, mediante a distinção entre dons hierárquicos e dons carismáticos, a sua diferença na unidade. São também significativas as afirmações feitas pela Lumen gentium 12 sobre a realidade carismática no contexto da participação do povo de Deus na missão profética de Cristo, na qual se reconhece que o Espírito Santo «não só santifica e conduz o Povo de Deus por meio dos sacramentos e ministérios e o adorna com virtudes» mas «distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as classes, as quais os tornam aptos e dispostos a tomar diversas obras e encargos, proveitosos para a renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja».

Por fim, descreve-se o seu caráter pluriforme e providente: «estes carismas, quer sejam os mais elevados, quer também os mais simples e comuns, devem ser recebidos com ação de graças e consolação, por serem muito acomodados e úteis às necessidades da Igreja»[24]. Reflexões semelhantes encontram-se também no Decreto conciliar sobre o apostolado dos leigos[25]. O mesmo documento afirma que esses dons não devem ser considerados como algo facultativo na vida da Igreja; melhor, «a receção destes carismas, mesmo dos mais simples, confere a cada um dos fiéis o direito e o dever de os atuar na Igreja e no mundo, para bem dos homens e edificação da Igreja, na liberdade do Espírito Santo»[26]. Por conseguinte, os carismas autênticos são considerados dons de irrenunciável importância para a vida e para a missão eclesial. Por fim, é constante nos ensinamentos conciliares o reconhecimento do papel essencial dos pastores no discernimento dos carismas e dos seu exercício dentro da comunidade eclesial[27]

O Magistério pós-conciliar

10. As intervenções do Magistério sobre este assunto no período a seguir ao Concílio Vaticano II multiplicaram-se[28]. Isto deve-se à crescente vitalidade dos novos movimentos, agregações de fiéis e comunidades eclesiais, juntamente com a necessidade de precisar o lugar da vida consagrada dentro da Igreja[29]. João Paulo II, ao longo do seu Magistério, insistiu particularmente no princípio da co-essencialidade destes dons: «Repetidas vezes sublinhei que na Igreja não existe contraste nem contradição entre a dimensão institucional e a dimensão carismática, da qual os Movimentos são uma expressão importante. Tanto uma como outra são co-essenciais na constituição divina da Igreja fundada por Jesus, uma vez que concorrem conjuntamente para tornar presente o mistério de Cristo e a sua obra salvífica no mundo»[30]. O Papa Bento XVI, além de sublinhar a sua co-essencialidade, aprofundou a afirmação do seu predecessor recordando que «tal como na Igreja as instituições essenciais são carismáticas, assim os carismas devem de uma forma ou de outra institucionalizar-se, para que haja coerência e continuidade. Assim, ambas as dimensões, originárias do Espírito Santo através do Corpo de Cristo, concorrem conjuntamente para tornar presente o mistério e a obra salvífica de Cristo no mundo»[31]. Tanto os dons hierárquicos como os carismáticos resultam desta forma reciprocamente relacionados desde a sua origem. Finalmente, o Papa Francisco recordou «a harmonia» que o Espírito estabelece entre os diversos dons e apelou às agregações carismáticas para uma abertura missionária, para a obediência aos pastores[32] e para a imanência eclesial, uma vez que «é no âmbito da comunidade que desabrocham e florescem os dons que o Pai nos concede em abundância; e é no seio da comunidade que aprendemos a reconhecê-los como um sinal do seu amor por todos os seus filhos»[33]. Portanto, para concluir, é possível reconhecer uma convergência do Magistério eclesial recente sobre a co-essencialidade entre os dons hierárquicos e carismáticos. A sua contraposição, bem como a sua justaposição, seria sintoma de uma errada ou insuficiente compreensão da ação do Espírito Santo na vida e na missão da Igreja.

III. O FUNDAMENTO TEOLÓGICO DA RELAÇÃO ENTRE DONS HIERÁRQUICOS E CARISMÁTICOS

Horizonte trinitário e cristológico dos dons do Espírito Santo

11. Para poder apreender as razões profundas da relação entre dons hierárquicos e carismáticos é oportuno fazer referência ao seu fundamento teológico. De facto, a necessidade de superar qualquer tipo de contraposição estéril ou intrínseca justaposição entre dons hierárquicos e carismáticos é exigida pela própria economia da salvação, a qual compreende a relação intrínseca entre as missões do Verbo incarnado e do Espírito Santo. Na realidade, todos os dons do Pai implicam a referência à ação conjunta e diferenciada das missões divinas: todos os dons provêm do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo. O dom do Espírito na Igreja está ligado á missão do Filho, consumada plenamente no seu mistério pascal. O próprio Jesus relaciona o cumprimento da sua missão com o envio do Espírito à comunidade dos crentes[34]. Por isso, o Espírito Santo não pode, seja de que forma for, inaugurar uma economia diversa à do Logos divino incarnado, crucificado e ressuscitado[35]. De facto, toda a economia sacramental da Igreja é a realização pneumatológica da Incarnação: por isso, o Espírito Santo é considerado pela Tradição como a alma da Igreja, Corpo de Cristo. A ação de Deus na história implica sempre a relação entre o Filho e o Espírito Santo, aos quais Ireneu de leão chama sugestivamente «as duas mãos do Pai»[36]. Neste sentido, nenhum dom do Espírito pode deixar de estar em relação com o Verbo feito carne[37].

A relação originária entre os dons hierárquicos, conferidos pela graça sacramental da Ordem, e os dons carismáticos, livremente distribuídos pelo Espírito Santo, tem, portanto, a sua raiz última na relação entre o Logos divino incarnado e o Espírito Santo, que é sempre Espírito do Pai e do Espírito. Precisamente para evitar visões teológicas equívocas que requeressem (levassem a) uma «Igreja do Espírito» diversa e separada da Igreja hierárquica-institucional, é oportuno sublinhar que as duas missões divinas se implicam reciprocamente em todos os dons concedidos à Igreja. Na realidade, a missão de Jesus Cristo implica, já por si própria, a ação do Espírito. João Paulo II, na sua Carta encíclica sobre o Espírito Santo, Dominum et vivificantem, tinha já mostrado a importância decisiva da ação do Espírito na missão do Filho[38]. Bento XVI aprofundou este pensamento na Exortação apostólica Sacramentum caritatis, recordando que o Paráclito «ativo já na criação (Gn 1, 2), está presente em plenitude na vida inteira do Verbo encarnado». Jesus Cristo «é concebido no seio da Virgem Maria por obra do Espírito Santo (Mt 1, 18; Lc 1, 35); no início da sua missão pública, nas margens do Jordão, vê-O descer sobre Si em forma de pomba (Mt 3, 16 e par.); neste mesmo Espírito, age, fala e exulta (Lc 10, 21); e é n’Ele que Jesus pode oferecer-Se a Si mesmo (Heb 9, 14). No chamado «discurso de despedida» referido por João, Jesus põe claramente em relação o dom da sua vida no mistério pascal com o dom do Espírito aos Seus (Jo 16, 7). Depois de ressuscitado, trazendo na sua carne os sinais da paixão, pode derramar o Espírito (Jo 20, 22), tornando os seus discípulos participantes da mesma missão d’Ele (Jo 20, 21). Em seguida, será o Espírito que ensina aos discípulos todas as coisas, recordando-lhes tudo o que Cristo tinha dito (Jo 14, 26), porque compete a Ele, enquanto Espírito da verdade (Jo 15, 26), introduzir os discípulos na verdade total (Jo 16, 13). Segundo narram os Actos, o Espírito desce sobre os Apóstolos reunidos em oração com Maria no dia de Pentecostes (2, 1-4), e impele-os para a missão de anunciar a boa nova a todos os povos»[39].

A ação do Espírito Santo nos dons hierárquicos e carismáticos

12. Destacar o horizonte trinitário e cristológico dos dons divinos também ilumina a relação entre dons hierárquicos e carismáticos. De facto, nos dons hierárquicos, enquanto ligados ao sacramento da Ordem, surge em primeiro plano a relação com o agir salvífico de Cristo, como por exemplo a instituição da Eucaristia (cf. Lc 22, 19s; 1 Cor 11, 25), o poder de perdoar os pecados (cf. Jo 20, 22s), o mandato apostólico com a tarefa de evangelizar e batizar (cf. Mc 16, 15s; Mt 28, 18-20); ao mesmo tempo, é evidente que nenhum sacramento pode ser conferido sem a ação do Espírito Santo[40]. Por outro lado, os dons carismáticos dispensados pelo Espírito Santo, «que sopra onde quer» (cf. Jo 3, 8) e distribui os seus dons «como lhe apraz» (1 Cor 12, 11), são objetivamente relacionados com a vida nova em Cristo, uma vez que «cada um pela sua parte» (1 Cor 12, 27) é membro do seu Corpo. Portanto, a correta compreensão dos dons carismáticos é feita somente em relação à presença de Cristo e ao seu serviço; tal como afirmou João Paulo II, «os verdadeiros carismas não podem senão tender para o encontro com Cristo nos Sacramentos»[41]. Portanto, tanto os dons hierárquicos como os carismáticos aparecem unidos relativamente à relação intrínseca entre Jesus Cristo e o Espírito Santo. O Paráclito é, contemporaneamente, Aquele que, através dos sacramentos, difunde eficazmente a graça salvífica oferta por Cristo morto e ressuscitado, e Aquele que dispensa os carismas. Na tradição litúrgica dos cristãos do Oriente, especialmente na siríaca, o lugar do Espírito Santo, representado na imagem do fogo, ajuda a tornar tudo isto muito claro. O grande teólogo e poeta Efrém, o Sírio, afirma com efeito que «o fogo da compaixão desceu e veio habitar no pão»[42], indicando a sua ação transformadora em relação não só aos dons mas também aos fiéis que comerão o pão eucarístico. A perspetiva oriental, com a eficácia das suas imagens, ajuda-nos a compreender como, ao aproximarmo-nos da Eucaristia, Cristo nos dá o Espírito. O mesmo Espírito, seguidamente, por meio da sua ação nos fiéis, alimenta a vida em Cristo, conduzindo-os novamente a uma mais profunda vida sacramental, sobretudo na Eucaristia. Deste modo, a ação livre da Santíssima Trindade na história alcança para os fiéis o dom da salvação e simultaneamente anima-os, afim que eles correspondam livremente e plenamente com o compromisso da própria vida.

IV. A relação entre dons hierárquicos e carismáticos

na vida e na missão da Igreja

Na Igreja como mistério de comunhão

13.       A Igreja apresenta-se como «um povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo»[43], no qual a relação entre dons hierárquicos e carismáticos tem como fim a plena participação dos fiéis na comunhão e missão evangelizadora. Fomos gratuitamente predestinados em Cristo a esta vida nova (Rom 8, 29-31; Ef 1, 4-5). O Espírito Santo «realiza esta maravilhosa comunhão entre os fiéis e une-os de tal modo intimamente em Cristo, que se torna o princípio da unidade da Igreja»[44]. É, de facto, na Igreja, que os homens são convocados para se tornarem membros de Cristo[45] e é na comunhão eclesial que se unem em Cristo, como membros uns dos outros. Comunhão é sempre uma «dupla participação vital: a incorporação dos cristãos na vida de Cristo e a circulação dessa mesma caridade em todo o tecido dos fiéis, neste mundo e no outro. União a Cristo e em Cristo; e união entre os cristãos, na Igreja»[46]. Neste sentido, o mistério da Igreja resplandece «em Cristo como um sacramento ou sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo o género humano»[47].

Aqui desponta a raiz sacramental da Igreja como mistério de comunhão: «Trata-se fundamentalmente da comunhão com Deus, por meio de Jesus Cristo, no Espírito Santo. Uma comunhão que vem da Palavra de Deus e dos Sacramentos. O Baptismo» – em estreita unidade com a Confirmação – «é a porta e o fundamento da comunhão na Igreja. A Eucaristia é a fonte e ponto culminante de toda a vida cristã»[48]. Estes sacramentos da iniciação são constitutivos da vida cristã e sobre eles se apoiam os dons hierárquicos e carismáticos. A vida da comunhão eclesial, assim internamente ordenada, vive na escuta religiosa permanente da Palavra de Deus e é alimentada pelos Sacramentos. A própria Palavra de Deus apresenta-se-nos profundamente ligada aos Sacramentos, em particular à Eucaristia[49], dentro do único horizonte sacramental da Revelação. A própria tradição oriental vê a Igreja, Corpo de Cristo animado pelo Espírito Santo, como uma unidade ordenada, o que também se expressa ao nível dos seus dons. A presença eficaz do Espírito no coração dos crentes (cf. Rom 5, 5) é a raiz desta unidade também para as manifestações carismáticas[50]. Os carismas dados às pessoas singulares, de facto, fazem parte da mesma Igreja e são destinados a uma mais intensa vida eclesial. Esta perspectiva surge também nos escritos do Beato John Henry Newman: «Assim, o coração de cada cristão deveria representar em miniatura a Igreja católica, pois um só Espírito faz a Igreja inteira e faz de cada membro desta o Seu Templo»[51]. Isto torna ainda mais evidente o motivo pelo qual não são legítimas quaisquer contraposições ou justaposições entre dons hierárquicos e dons carismáticos.

Em síntese, a relação entre os dons carismáticos e a estrutura eclesial sacramental confirma a coessencialidade entre dons hierárquicos – de por si estáveis, permanentes e irrevocáveis – e dons carismáticos. Apesar destes últimos, nas suas formas históricas, não serem garantidos para sempre[52], a dimensão carismática nunca pode faltar à vida e à missão da Igreja.

Identidade dos dons hierárquicos

14.       Em ordem à santificação de cada um dos membro do povo de Deus e à missão da Igreja no Mundo, entre os diversos dons, «sobressai a graça própria dos apóstolos, a cuja autoridade o mesmo Espírito sujeitou também os carismáticos»[53]. O próprio Jesus Cristo quis que existissem dons hierárquicos para assegurar a contemporaneidade da Sua única mediação salvífica: «Cristo enriqueceu os apóstolos com a efusão especial do Espírito Santo (cf. At 1, 8; 2, 4; Jo 20, 22-23); os apóstolos, por sua vez, transmitiram aos seus colaboradores, pela imposição das mãos, este dom do Espírito (cf. 1Tm 4,14; 2Tm 1,6-7)»[54]. Por isso, a atribuição dos dons hierárquicos deve ser elevada sobretudo à plenitude do sacramento da Ordem, conferida pela consagração episcopal, que comunica «juntamente com o múnus de santificar, os ofícios de ensinar e de governar, que, por sua natureza, não podem exercer-se senão em comunhão hierárquica com a cabeça e com os membros do colégio.»[55]. Por isso, «na pessoa dos bispos, coadjuvados pelos presbíteros, está presente no meio dos fiéis o Senhor Jesus Cristo […]; através do seu ministério excelso, Ele prega a palavra de Deus a todos os povos e administra continuamente os sacramentos da fé aos crentes; e, graças ao ofício paternal dos mesmos (cf. 1 Cor 4, 15), vai incorporando por geração sobrenatural novos membros ao seu corpo; finalmente, pela sabedoria e prudência dos bispos, dirige e orienta o povo do Novo Testamento na sua peregrinação para a eterna bem-aventurança»[56]. A tradição cristã oriental, tão vivamente ligada aos Padres, lê tudo isto na sua peculiar concepção da taxis. Segundo Basílio Magno, é evidente que a organização da Igreja é obra do Espírito Santo e até a ordem (taxis) em que Paulo elenca os carismas (cf. 1 Cor 12, 28) «está de acordo com a distribuição dos dons do Espírito»[57], indicando como primeiro dentre estes o dos apóstolos. A partir da referência à consagração episcopal, compreendem-se também os dons hierárquicos relacionados com os outros graus da Ordem; antes de mais, os dos presbíteros que são «consagrados para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino» e, «sob a autoridade do bispo, santificam e dirigem a porção da grei do Senhor que lhes foi confiada», bem como tornando-se, por sua vez, «modelos do povo, governem e estejam ao serviço da sua comunidade local»[58]. Aos bispos e presbíteros, no sacramento da Ordem, pela unção sacerdotal, são «configurados a Cristo sacerdote, de tal modo que possam agir na pessoa de Cristo cabeça»[59]. A esses devem acrescentar-se os dons concedidos aos diáconos, «que receberam a imposição das mãos, não para o sacerdócio, mas para o ministério»; e que «confortados pela graça sacramental, servem o povo de Deus no ministério da liturgia, da palavra e da caridade, em comunhão com o bispo e o seu presbitério»[60]. Em síntese, os dons hierárquicos próprios do sacramento da Ordem, nos seus vários graus, são concedidos, para que, na Igreja, como comunhão, nunca falta a cada fiel a oferta objetiva da graça nos sacramentos, o anúncio normativo da Palavra de Deus e o cuidado pastoral.

Identidade dos dons carismáticos

15.       Se pelo exercício dos dons hierárquicos é assegurada, ao longo da história, a oferta da graça de Cristo a favor de todo o povo de Deus, todos os fiéis são chamados a acolhê-la e a corresponder-lhe pessoalmente nas circunstâncias concretas da própria vida. Os dons carismáticos são, por isso, distribuídos livremente pelo Espírito Santo, para que a graça sacramental produza fruto na vida cristã de modo diversificado e a todos os níveis. Sendo estes carismas «perfeitamente acomodados e úteis às necessidades da Igreja»[61], através da sua riqueza multiforme, o povo de Deus pode viver em plenitude a missão evangelizadora, examinando e interpretando os sinais dos tempos à luz do Evangelho[62]. De facto, os dons carismáticos levam os fiéis a responder, em plena liberdade e num modo adequado aos tempos, ao dom da salvação, fazendo de si próprios um dom de amor para os outros e um testemunho autêntico do Evangelho diante de todos os homens.

Os dons carismáticos partilhados

16.       Neste contexto é útil lembrar quanto os dons carismáticos podem ser diversos entre si, não só pelas suas características específicas, mas também pela sua extensão na comunhão eclesial. Os dons carismáticos «são dados ao indivíduo, mas também podem ser partilhados por outros e de tal modo perseveram no tempo como uma herança preciosa e viva, que gera uma afinidade espiritual entre as pessoas»[63]. A ligação entre o carácter pessoal do carisma e a possibilidade de participação nele exprime um elemento decisivo da sua dinâmica, na medida em que tem que ver com a relação que, na comunidade eclesial, liga sempre a pessoa e a comunidade[64]. Na sua prática, os dons carismáticos podem gerar afinidade, proximidade e parentescos espirituais, através dos quais se pode participar no património carismático a partir da pessoa do fundador e aprofundá-lo, dando vida a verdadeiras e autênticas famílias espirituais. As agregações eclesiais, nas suas variadas formas, apresentam-se como dons carismáticos partilhados. Movimentos eclesiais e novas comunidades mostram como um determinado carisma originário pode agregar fiéis e ajuda-los a viver plenamente a própria vocação cristã e o próprio estado de vida ao serviço da missão eclesial. As formas históricas concretas desta partilha podem em si ser diversificadas, pelo que, a partir de um carisma originário, fundacional, possam surgir várias fundações, como mostra a história da espiritualidade.

O reconhecimento por parte da autoridade eclesiástica

17.       Entre os dons carismáticos livremente distribuídos pelo Espírito, há imensos que, acolhidos e vividos pela pessoa no seio da comunidade cristã, não necessitam de regulamentações particulares. Quando, por outro lado, um dom carismático se apresenta como «carisma originário» ou «fundacional», então ele requer um reconhecimento específico, para que a sua riqueza se articule adequadamente na comunhão eclesial e se transmita fielmente através dos tempos. Aqui surge a tarefa decisiva de discernimento, que pertence à autoridade eclesiástica[65]. Reconhecer a autenticidade do carisma não é uma tarefa sempre fácil, mas é um serviço imprescindível que os Pastores devem realizar. Na realidade, os fiéis têm o «direito de ser advertidos pelos Pastores sobre a autenticidade dos carismas e sobre a credibilidade dos que se apresentam como seus depositários»[66]. Para tal, a autoridade deverá ser consciente da efetiva imprevisibilidade dos carismas suscitados pelo Espírito Santo, valorizando-os de acordo com a regra da fé, tendo em vista a edificação da Igreja[67]. Trata-se de um processo que se alonga no tempo e que requer etapas adequadas à sua autenticação, passando através de um discernimento sério, até chegar ao reconhecimento eclesial do seu caráter genuíno. A realidade agregadora que brota de um carisma deve ter um tempo oportuno de experimentação e de consolidação, que vá além do entusiasmo inicial, até chegar a uma configuração estável. Ao longo de todo o itinerário de verificação, a autoridade da Igreja deve acompanhar benevolamente a nova realidade agregadora. Trata-se de um acompanhamento por parte dos pastores que nunca deve diminuir, pois nunca diminui a paternidade daqueles que, na Igreja, são chamados a ser vicários do Bom Pastor, cujo amor solícito não deixa nunca de acompanhar o Seu rebanho.

Critérios para o discernimento dos dons carismáticos

18.       Neste quadro, podem ser retomados alguns critérios para o discernimento dos dons carismáticos em relação às agregações eclesiais, que o Magistério da Igreja pôs em evidência ao longo dos últimos anos. Estes critérios têm o objetivo de contribuir para o reconhecimento de uma autêntica eclesialidade dos carismas.

a) Primado da vocação de cada cristão à santidade. Cada realidade que nasce da participação de um carisma autêntico deve ser sempre instrumento de santidade na Igreja e, consequentemente, de incremento da caridade e de autêntica tensão rumo à perfeição do amor[68].

b) Empenho na difusão missionária do Evangelho. As realidades carismáticas autênticas são «presentes do Espírito integrados no corpo eclesial, atraídos para o centro que é Cristo, donde são canalizados num impulso evangelizador»[69]. Para tal, devem realizar «a conformidade e a participação na finalidade apostólica da Igreja», manifestando um claro «entusiasmo missionário que as torne, sempre e cada vez mais, sujeitos de uma nova evangelização»[70].

c) Confissão da fé católica. Cada realidade carismática deve ser um lugar de educação para a fé na sua integralidade, «acolhendo e proclamando a verdade sobre Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem, em obediência ao magistério da Igreja que autenticamente a interpreta»[71]; portanto, é de evitar de se aventurar «ultrapassando (proagon) a doutrina e a comunidade eclesial»; de facto, se «se deixa de permanecer nelas, não se está unido ao Deus de Jesus Cristo (cf. 2 Jo 9)»[72].

d) Testemunho de uma comunhão ativa com toda a Igreja. Isto comporta uma «relação filial com o Papa, centro perpétuo e visível da unidade da Igreja universal, e com o Bispo, “princípio visível e fundamento da unidade” da Igreja particular»[73]. Esta relação implica a «disponibilidade leal em aceitar os seus ensinamentos doutrinais e orientações pastorais»[74], assim como «a disponibilidade em participar nos programas e nas atividades da Igreja, tanto a nível local como nacional ou internacional; o empenhamento catequético e a capacidade pedagógica de formar os cristãos»[75].

e) Reconhecimento e estima da complementaridade recíproca de outras realidades carismáticas na Igreja. Daqui deriva também a disponibilidade para uma colaboração recíproca[76]. De facto, «um sinal claro da autenticidade de um carisma é a sua eclesialidade, a sua capacidade de se integrar harmoniosamente na vida do Povo santo de Deus para o bem de todos. Uma verdadeira novidade, suscitada pelo Espírito, não precisa de fazer sombra sobre outras espiritualidades e dons, para se afirmar a si mesma»[77].

f) Aceitação dos momentos de prova no discernimento dos carismas. Uma vez que o dom carismático pode possuir «uma dose de novidade de vida espiritual para toda a Igreja, que, num primeiro momento, pode aparentar ser incómoda», um critério de autenticidade manifesta-se na «humildade em suportar os contratempos: a relação justa entre carisma genuíno, perspectiva de novidade e sofrimento interior comporta uma constante histórica de ligação entre carisma e cruz»[78]. O aparecimento de tensões eventuais exige, por parte de todos, a prática de uma caridade maior, tendo em vista uma comunhão e unidade eclesiais cada vez mais profundas.

g) Presença de frutos espirituais, tais como caridade, alegria, humanidade e paz (cf. Gal 5, 22); «viver ainda mais intensamente a vida da Igreja»[79], um zelo mais intenso pela «escuta e meditação da Palavra de Deus»[80]; «um gosto renovado pela oração, a contemplação, a vida litúrgica e sacramental; a animação pelo florescimento de vocações ao matrimónio cristão, ao sacerdócio ministerial, à vida consagrada»[81].

h) Dimensão social da evangelização. É necessário reconhecer que, graças ao impulso da caridade, «o querigma possui um conteúdo inevitavel­mente social: no próprio coração do Evangelho, aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros»[82]. Neste critério de discernimento, referido não exclusivamente às realidades laicais na Igreja, sublinha-se a necessidade de ser «correntes vivas de participação e de solidariedade para construir condições mais justas e fraternas no seio da sociedade»[83]. Neste âmbito, são significativos «o impulso em ordem a uma presença cristã nos vários ambientes da vida social e a criação e animação de obras caritativas, culturais e espirituais; o espírito de desapego e de pobreza evangélica em ordem a uma caridade mais generosa para com todos»[84]. É também decisiva a referência à Doutrina Social da Igreja[85]. Em particular, «deriva da nossa fé em Cristo que se fez pobre e sempre Se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade»[86], que não pode faltar numa realidade eclesial autêntica.

V. Prática eclesial da relação entre dons hierárquicos e dons carismáticos

19.       Por fim, é necessário tratar alguns elementos da prática eclesial concreta no que diz respeito à relação entre dons hierárquicos e carismáticos que se configuram como agregações carismáticas no seio da comunhão eclesial.

Referência recíproca

20.       Antes de mais, a prática da boa relação entre os vários dons na Igreja exige uma inserção ativa das realidades carismáticas na vida pastoral das Igrejas particulares. Isto implica, sobretudo, que as diversas agregações reconheçam a autoridade dos pastores na Igreja como uma realidade interna da própria vida cristã, desejando sinceramente ser reconhecidas, acolhidas e eventualmente purificadas, colocando-se ao serviço da missão eclesial. Por outro lado, os que foram investidos dos dons hierárquicos, levando a cabo o discernimento e o acompanhamento dos carismas, devem acolher cordialmente o que o Espírito suscita no seio da comunhão eclesial, tendo-o em conta na ação pastoral e valorizando o seu contributo como uma autêntica riqueza para o bem de todos.

Os dons carismáticos na Igreja universal e particular

21.       Relativamente à difusão e à particularidade das realidades carismáticas, deve-se ter em conta a relação imprescindível e constitutiva entre Igreja universal e Igrejas particulares. A este propósito, é oportuno sublinhar que a Igreja de Cristo, como professamos no Símbolo apostólico, «é a Igreja universal, ou seja, a comunidade universal dos discípulos do Senhor, que se torna presente e operante na particularidade e diversidade das pessoas, grupos, tempos e lugares»[87]. A dimensão particular é, portanto, intrínseca à universal e vice-versa; de facto, entre Igrejas particulares e Igreja universal existe uma relação de «mútua interioridade»[88]. Os dons hierárquicos próprios do Sucessor de Pedro exercitam-se, neste contexto, ao garantir e favorecer a imanência da Igreja universal nas Igrejas locais; assim como a tarefa apostólica de cada bispo não se limita à própria diocese, mas deve fluir para toda a Igreja, através da colegialidade ativa e efetiva, sobretudo através da comunhão com aquele centrum unitatis Ecclesiae que é o Romano Pontífice. Este, de facto, enquanto «sucessor de Pedro, é o princípio e o fundamento perpétuo e visível da unidade, quer dos bispos, quer da multidão dos fiéis. Por sua vez, cada bispo é o princípio e o fundamento visível da unidade na sua Igreja particular, formada à imagem da Igreja universal: nas quais e a partir das quais resulta a Igreja católica una e única»[89]. Isto implica que, em cada Igreja particular «está e opera verdadeiramente a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica»[90]. Por isso, a referência à autoridade do Sucessor de Pedro – a comunhão cum Petro et sub Petro – é constitutiva de cada Igreja local[91].

Deste modo, estão colocadas as bases para relacionar dons hierárquicos e carismáticos dentro da relação entre Igreja universal e Igrejas particulares. De facto, por um lado, os dons carismáticos são dados a toda a Igreja; por outro, a dinâmica destes dons não se pode realizar sem ser ao serviço de uma diocese concreta, a qual é «a porção do povo de Deus, que se confia aos cuidados pastorais de um bispo, coadjuvado pelo seu presbitério»[92]. A este propósito, pode ser útil lembrar o caso da vida consagrada; esta, de facto, não é uma realidade externa ou independente da vida da Igreja local, mas constitui um modo peculiar, marcado pela radicalidade evangélica, de estar presente no seu seio, com os seus dons específicos. A tradicional da “isenção”, associada a muitos institutos de vida consagrada[93], tem como significado não uma supra-localidade desencarnada ou uma autonomia mal entendida, mas sim uma interação mais profunda entre as dimensões universal e particular da Igreja[94]. Analogamente, as novas realidades carismáticas, sempre que possuam caráter supra-diocesano, não devem conceber-se a si próprias num modo totalmente autónomo no que diz respeito à Igreja particular. Pelo contrário, devem enriquecê-la e servi-la por força das próprias peculiaridades partilhadas para além dos confins de uma diocese singular.

Os dons carismáticos e os estados de vida do cristão

22.       Os dons carismáticos dispensados pelo Espírito Santo podem ser visto em relação a toda a ordem da comunhão eclesial, tanto em referência aos Sacramentos, como à Palavra de Deus. De acordo com as suas variadas peculiaridades, eles permitem que se dê muito fruto na realização daquelas tarefas que emanam do Baptismo, do Crisma, do Matrimónio e da Ordem, assim como possibilitam uma maior compreensão espiritual da Tradição apostólica, a qual, para além do estudo e da pregação dos que receberam o charisma veritatis certum[95], pode ser aprofundada com «a íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais»[96]. Nesta perspectiva, é útil enumerar as questões fundamentais relativas às ligações entre dons carismáticos e os diferentes estados de vida, com uma referência particular ao sacerdócio comum do Povo de Deus e ao sacerdócio hierárquico, os quais «apesar de diferirem entre si essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se um para o outro; de facto, ambos participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo»[97]. De facto, trata-se de «dois modos de participação no único sacerdócio de Cristo, no qual estão presentes duas dimensões, que se unem no ato supremo do sacrifício da cruz»[98].

a) Em primeiro lugar, é necessário reconhecer a bondade dos diversos carismas que estão na origem de agregações eclesiais entre todos os fiéis, chamados a fazer frutificar a graça sacramental, sob a guia dos pastores legítimos. Esses dons representam uma possibilidade autêntica para viver e desenvolver a própria vocação cristã[99]. Estes dons carismáticos permitem aos fiéis viver na existência quotidiana  o sacerdócio comum do  Povo de Deus: como «discípulos de Cristo, perseverando juntos na oração e no louvor de Deus (cf. At 2,42-47), ofereçam-se a si mesmos como hóstia viva, santa, agradável a Deus (cf. Rm 12,1); dêem testemunho de Cristo em toda a parte; e, àqueles que por isso se interessarem, falem da esperança, que está neles, da vida eterna (cf. 1Pe 3,15)»[100]. Nesta linha colocam-se também as agregações eclesiais que podem ser particularmente significativas para a vida cristã no matrimónio, as quais podem validamente «fortalecer com a doutrina e a ação os jovens e os próprios esposos, especialmente os recém-casados e formá-los para a vida familiar, social e apostólica »[101].

b) Também os ministros ordenados, na participação numa realidade carismática, poderão encontrar, tanto um apelo ao sentido do próprio Baptismo, com o qual se tornaram filhos de Deus, quer à sua vocação e missão específica. Um fiel ordenado poderá encontrar, numa determinada agregação eclesial, força e ajuda para viver a fundo o que lhe é pedido pelo seu ministério específico, quer perante todo o Povo de Deus, e em particular a porção que lhe está confiada, quer no que diz respeito à obediência sincera devida ao próprio Ordinário[102]. Pode-se afirmar o mesmo analogamente no que diz respeito aos casos de candidatos ao sacerdócio que provenham de uma determinada agregação eclesial, como afirmado na Exortação pós-sinodal Pastores dabo vobis[103]. Essa ligação deverá exprimir-se na docilidade ativa à própria formação específica, na qual se deverá inserir a riqueza proveniente do carisma de referência. Por fim, a ajuda pastoral que o sacerdote poderá oferecer à agregação eclesial, de acordo com as caraterísticas do próprio movimento, poderá realizar-se na observância do regime previsto na comunhão eclesial para a Ordem sagrada, no que diz respeito à incardinação[104] e à obediência devida ao próprio Ordinário[105].

c) O contributo de um dom carismático ao sacerdócio baptismal e ao sacerdócio ministerial é expresso emblematicamente pela vida consagrada, que, com tal, se situa na dimensão carismática da Igreja[106]. Um carisma, que realiza «a conformação especial a Cristo virgem, pobre e obediente»[107] como forma de vida estável[108], mediante a profissão dos conselhos evangélicos, é concedido para «conseguir fruto mais abundante da graça baptismal»[109]. A espiritualidade dos Institutos de vida consagrada pode tornar-se, tanto para o fiel leigo, como para o presbítero, num auxílio para viver a própria vocação. Além disso, não é raro que membros de vida consagrada, com a necessária anuência do respetivo superior[110], encontrem na relação com as novas agregações um apoio importante para viver a própria vocação específica e oferecer, por seu lado, um «testemunho gozoso, fiel e carismático da vida consagrada», permitindo assim um «enriquecimento recíproco»[111].

d) Por fim, é significativo que o espírito dos conselhos evangélicos seja recomendado pelo Magistério também a cada ministro ordenado[112]. Inclusive o celibato, pedido aos presbíteros na venerável tradição latina[113], insere-se claramente na linha do dom carismático. Não se trata de uma realidade primariamente funcional, mas «constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo»[114], em que se realiza a plena entrega pessoal, tendo em vista a missão conferida mediante o sacramento da Ordem[115].

Formas de reconhecimento eclesial

23.       O presente documento pretende esclarecer a colocação teológica e eclesiológica das novas agregações eclesiais, a partir da relação entre dons hierárquicos e dons carismáticos, de modo a favorecer a identificação concreta das modalidades mais adequadas para o reconhecimento eclesial destes últimos. O Código de Direito Canónico atual prevê diversas formas jurídicas de reconhecimento das novas realidades eclesiais que se baseiam em dons carismáticos. Essas formas deverão ser consideradas atentamente[116], evitando situações que não tenham em adequada consideração nem os princípios fundamentais do direito nem a natureza e a peculiaridade das diversas realidades carismáticas.

Do ponto de vista da relação entre dons hierárquicos e carismáticos é necessário respeitar dois critérios fundamentais que devem ser considerados inseparavelmente: a) o respeito pela peculiaridade carismática de cada agregação eclesial, evitando formas jurídicas forçadas que anulem a novidade trazida pela experiência específica. Deste modo, evitar-se-á que os vários carismas possam ser considerados como dotes indiferenciados dentro da Igreja. b) o respeito do regime eclesial fundamental, favorecendo a inserção real dos dons carismáticos na vida da Igreja universal e particular, evitando que a realidade carismática seja concebida paralelamente à vida eclesial e sem uma referência ordenada aos dons hierárquicos.

Conclusão

24.       Atendendo à efusão do Espírito Santo, os primeiros discípulos eram assíduos e concordes na oração, juntamente com Maria, a mãe de Jesus (cf. At 1, 14). Ela foi perfeita a acolher e a fazer frutificar as graças singulares com as quais tinha sido enriquecida de forma superabundante pela Santíssima Trindade, em que a primeira entre todas foi a graça de ser Mãe de Deus. Todos os filhos da Igreja podem admirar a Sua plena docilidade à ação do Espírito Santo: docilidade na fé, sem rupturas, e numa humildade cristalina. Assim, Maria testemunha em plenitude o acolhimento obediente e fiel de cada dom do Espírito. Mas mais ainda, como ensina o Concílio Vaticano II, a Virgem Maria «com Seu amor de Mãe, cuida dos irmãos de seu Filho, que ainda peregrinam e se debatem entre perigos e angústias, até que sejam conduzidos à Pátria feliz»[117]. Uma vez que Ela «se deixou-Se conduzir pelo Espírito, através dum itinerário de fé, rumo a uma destinação feita de serviço e fecundidade», também nós, «hoje, fixamos n’Ela o nosso olhar, para que nos ajude a anunciar a todos a mensagem de salvação e para que os novos discípulos se tornem operosos evangelizadores»[118].

Por este motivo, Maria é reconhecida como Mãe da Igreja e nós recorremos a Ela, cheios de confiança, para que, com a Sua ajuda eficaz e com a Sua potente intercessão, os carismas abundantemente distribuídos pelo Espírito Santo entre os fiéis sejam por estes acolhidos com docilidade e produzam fruto para a vida e a missão da Igreja e para o bem do mundo.

O Sumo Pontífice Francisco, na Audiência concedida no dia 14 de março de 2016 ao sobescrito Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, aprovou a presenta Carta, decidida na Sessão Plenária deste Dicastério, e ordenou a sua publicação.

Dado em Roma, na Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, a 15 de maio de 2016, Solenidade de Pentecostes.

Gerhard Card. Müller

Prefeito

                                                           + Luis F. Ladaria, S.I.

                                               Arcebispo Titular de Thibica

                                               Secretário

[1] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 4.

[2] João Crisóstomo, Homilia de Pentecoste, II, 1: PG 50, 464.

[3] Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 49: AAS 105 (2013), 1040.

[4] Cf. ibid., nn. 20-24: AAS 105 (2013), 1028-1029.

[5] Cf. ibid., n. 14: AAS 105 (2013), 1025.

[6] Ibid., n. 25: AAS 105 (2013), 1030.

[7] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Apostolicam actuositatem, n. 19.

[8] Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 14: AAS 105 (2013), 1026; cf. bento XVI, Homilia na Eucaristia de inauguração da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe no Santuário da “Aparecida” (13 de Maio de 2007): AAS 99 (2007), 43.

[9] João Paulo II, Discurso aos membros dos movimentos eclesiais e às novas comunidades na vigília de Pentecostes, (30 maio 1998), n. 7: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXI,1 (1998), 1123.

[10] Ibid., 6: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXI,1 (1998), 1122.

[11] Ibid., 8: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXI,1 (1998), 1124.

[12] «Há diversidade de charísmata» (1 Cor 12, 4); «temos charísmata que são diferentes» (Rm 12, 6); «cada um recebe de Deus o seu próprio chárisma, um de uma maneira, outro de outra» (1 Cor 7, 7).

[13] Em grego as duas palavras (chárisma e cháris) têm origem na mesma raiz.

[14] Cf. Origenes, De principiis, I, 3, 7; PG 11, 153: «aquilo que é chamado dom do Espírito é transmitido por obra do Filho e feito por obra do Pai».

[15] Basílio de Cesareia, Regulae fusius Tractae., 7, 2: PG 31, 933-934.

[16] «Quem fala em línguas, edifica-se a si mesmo, mas quem profetiza, edifica a assembleia» (1 Cor 14, 4). O apóstolo não despreza o dom da glossolalia, carisma de oração útil para a relação pessoal com Deus, e reconhece-o como um autêntico carisma, ainda que sem uma utilidade comum direta: «Graças a Deus, eu falo mais em línguas que todos vós. Mas, numa assembleia, prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência, para instruir também os outros, do que dez mil, em línguas» (1 Cor 14, 18-19).

[17] Cf. 1 Cor 12, 28: «aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos; em segundo, profetas; em terceiro, mestres; em seguida, há o dom dos milagres, depois o das curas, o das obras de assistência, o de governo e o das diversas línguas».

[18] Nos encontros comunitários, a superabundância das manifestações carismáticas pode criar mal-estar, produzindo uma atmosfera de rivalidade, desordem e confusão. Os cristãos menos dotados correm o risco de se sentirem inferiorizados (cf. 1 Cor 12, 15-16); pelo seu lado, os grandes carismáticos são tentados a assumir uma atitude de soberba e desprezo (cf. 1 Cor 12, 21).

[19] Se na assembleia não se encontra ninguém para interpretar as palavras misteriosas de quem fala em línguas, Paulo acrescenta que estes se devem calar. Se existe um intérprete, o apóstolo consente que dois, no máximo três, falem em línguas (cf. 1 Cor 14, 27-28).

[20] Paulo não aceita a ideia de uma inspiração profética incontrolável; pelo contrário, ele afirma que «as inspirações dos profetas devem submeter-se aos profetas, porque Deus não é um Deus de desordem, mas de paz» (1 Cor 14, 32-33). Ele afirma que «se algum de vós julga ser profeta ou estar na posse dos dons do Espírito, deve reconhecer, no que vos escrevo, um preceito do Senhor. Mas se alguém não o reconhecer, também não será reconhecido» (1 Cor 14, 37-38). No entanto, conclui de forma positiva, convidando a aspirar à profecia e a não impedir que se fale em línguas (cf. 1 Cor 14, 39).

[21] Cf. Pio XII, Carta enc. Mystici corporis (29 de junho de 1943): AAS 35 (1943), 206-230.

[22] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, nn. 4, 7, 11, 12, 25, 30, 50; Const. dogm. Dei Verbum, n. 8; Decr. Apostolicam actuositatem, nn. 3, 4, 30; Decr. Presbyterorum ordinis, nn. 4, 9.

[23] Id., Const. dogm. Lumen gentium, n. 4.

[24] Ibid., n. 12.

[25] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Apostolicam actuositatem, n. 3: «O Espírito Santo – que opera a santificação do Povo de Deus por meio do ministério e dos sacramentos – concede também aos fiéis, para exercerem este apostolado, dons particulares (cf. 1 Cor 12, 7), “distribuindo-os por cada um conforme lhe apraz” (1 Cor 12, 11), a fim de que “cada um ponha ao serviço dos outros a graça que recebeu” e todos atuem, “como bons administradores da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4, 10), para a edificação, no amor, do corpo todo (cf. Ef 4, 1)».

[26] Ibid.

[27] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 12: «O juízo acerca da sua autenticidade e recto uso, pertence àqueles que presidem na Igreja e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito mas julgar tudo e conservar o que é bom (cf. 1 Tess 5, 12. 19-21)». Apesar de se referir diretamente ao discernimento dos dons extraordinários, quanto se afirma aqui vale, por analogia, para todo e qualquer carisma.

[28] Cf. Por ex. Paulo VI, Exort. Apost. Evangelii nuntiandi (8 de dezembro de 1975), n. 58: AAS 68 (1976), 46-49; Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares – Congregação para os Bispos, Notas diretivas Mutuae relationes (14 de maio de 1978): ASS 70 (1978), 473-506; João Paulo II, Exort. Apost. Christifideles Laici (30 de dezembro de 1988): AAS 81 (1989), 393-521; Exort. Apost. Vita Consecrata (25 de março de 1996): AAS 88 (1996), 377-486.

[29] A afirmação do supracitado documento interdicasterial Mutuae relationes é emblemática ao recordar que «seria grave erro tornar independentes — mais grave ainda seria contrapô-las — a vida religiosa e as estruturas eclesiais, como se pudessem subsistir quais duas realidades distintas, carismática uma, institucional a outra; ao passo que ambos os elementos, isto é, os dons espirituais e as estruturas eclesiais, formam uma só, ainda que complexa, realidade» (34).

[30] João Paulo II, Mensagem aos participantes no Congresso mundial dos Movimentos eclesiais, promovido pelo Conselho Pontifício para os Leigos (27 de maio de 1998), n. 5: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXI, 1 (1998), 1065: cf. também ID., Mensagem aos movimentos eclesiais reunidos para o II Colóquio internacional (2 de março 1987): Insegnamenti di Giovanni Paolo II, X, 1 (1987), 476-479.

[31] Bento XVI, Discurso aos participantes na Peregrinação promovida pela fraternidade de Comunhão e Libertação, por ocasião do XXV Aniversário do Reconhecimento Pontifício (24 de março de 2007): Insegnamenti di Benedetto XVI, III, 1 (2007), 558.

[32] «O caminhar juntos na Igreja, guiados pelos Pastores – que para isso têm um carisma e ministério especial – é sinal da ação do Espírito Santo; uma característica fundamental para cada cristão, cada comunidade, cada movimento é a eclesialidade»: Francisco, Homilia na Solenidade de Pentecostes com os Movimentos, as Novas Comunidades, as Associações e as Agregações laicais (19 de maio de 2013): Insegnamenti di Francesco, I, 1, (2013), 208.

[33] Id., Audiência Geral (1 de outubro de 2014): L’Osservatore Romano (2 de outubro de 2014), 8.

[34] Cf. Jo 7, 39; 14, 26; 15, 26; 20, 22.

[35] Cf. Congregação para a doutrina da fé, Decl. Dominus Jesus (6 de agosto de 2000), nn. 9-12: AAS 92 (2000), 749-754.

[36] Ireneu De Leão, Adversus haereses, IV, 7, 4: PG 7, 992-993; V, 1, 3: PG 7, 1123; V, 6, 1: PG 7, 1137; V, 28, 4: PG 7, 1200.

[37] Cf. Congregação para a doutrina da fé, Decl. Dominus Jesus, n. 12: AAS 92 (2000), 752-754.

[38] Cf. João Paulo II, Carta enc., Dominum et vivificantem (18 de maio de 1986), n. 50: AAS 78 (1986), 869-870; cf. Catecismo da Igreja Católica, 727-730.

[39] Bento XVI, Exort. Apost. Sacramentum caritatis (22 de fevereiro de 2007), n. 12: AAS 99 (2007), 114.

[40] Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1104-1107.

[41] João Paulo II, Discurso aos membros dos movimentos eclesiais e das novas comunidades na vigília de Pentecostes (30 de maio de 1998), n. 7: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXI, 1 (1998), 1123.

[42] Efrem, o Sírio, Inni sulla fede, 10, 12: CSCO 154, 50.

[43] Cipriano de Cartago, De oratione dominica, 23: PL 4, 553; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 4.

[44] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 2.

[45]  Cf. Congregação para a doutrina da fé, Decl. Dominus Iesus, n. 16: AAS 92 (2000), 757: “a plenitude do mistério salvífico de Cristo pertence também à Igreja, unida de modo inseparável ao seu Senhor”.

[46] Paulo VI, Alocução de quarta-feira (8 de Junho de 1966): Insegnamenti di Paolo VI, IV (1966), 794.

[47] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 1.

[48] II Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo Dos Bispos, Ecclesia sub Verbo mysteria Christi celebrans pro salute mundi. Relatio finalis (7 de dezembro de 1985), II, C, 1: Enchiridium Vaticanum, 9, 1800; cf. Congregação para a doutrina da fé, Carta Communionis notio (28 de maio de 1992), nn. 4-5: AAS 85 (1993), 839-841.

[49] Cf. Bento XVI, Exort. apost. Verbum Domini (30 de setembro de 2010), n. 54: AAS 102 (2010), 733-734; Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 174: AAS 105 (2013), 1092-1093.

[50] Cf. Basílio de Cesareia, De Spiritu Sancto, 26: PG 32, 181.

[51] J.H. Newman, Sermons Bearing on Subjects of the Day, London, 1869, 132.

[52] Cf. o que se afirma paradigmaticamente para a vida consagrada por João Paulo II, Audiência geral (28 de setembro de 1994), 5: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XVII, 2 (1994), 404-405.

[53] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 7.

[54] Ibid., n. 21.

[55] Ibid.

[56] Ibid.

[57] Basílio de cesareia, De Spiritu Sancto, 16, 38: PG 32, 137.

[58] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 28.

[59] Id., Decr. Presbyterorum ordinis, nn. 2, 3.

[60] Id., Const. dogm. Lumen gentium, n. 29.

[61] Ibid., n. 12.

[62] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, nn. 4, 11.

[63] João Paulo II, Exort. apost. Christifideles laici, n. 24: AAS 81 (1989), 434.

[64] Cf. ibid., n. 29: AAS 81 (1989), 443-446.

[65] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 12.

[66] João Paulo II, Audiência geral (9 de março de 1994), n. 6: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XVII, 1 (1994), 641.

[67] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 799s; Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares – Congregação para os Bispos, Notas directivas Mutuae relationes, n. 51: AAS 70 (1978), 499-500; João Paulo II, Exort. apost. Vita consecrata, n. 48: AAS 88 (1996), 421-422; Id., Audiência geral (24 de junho de 1992), n. 6 Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XV, 1 (1992), 1935-1936.

[68] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, nn. 39-42; João Paulo II, Exort. apost. Christifideles laici, n. 30: AAS 81 (1989), 446.

[69] Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 130: AAS 105 (2013), 1074.

[70] João Paulo II, Exort. apost. Christifideles laici, n. 30: AAS 81 (1989), 447; cf. Paulo VI, Exort. apost. Evangelii nuntiandi, n. 58: AAS 68 (1976), 49.

[71] João Paulo II, Exort. apost. Christifideles laici, n. 30: AAS 81 (1989), 446-447.

[72] Francisco, Homilia na Solenidade de Pentecostes com os Movimentos, as Novas Comunidades, as Associações e as Agregações laicais (19 de maio de 2013): Insegnamenti di Francesco, I, 1 (2013), 208.

[73] João Paulo II, Exort. apost. Christifideles laici, n. 30: AAS 81 (1989), 447; cf. Paulo VI, Exort. apost. Evangelii nuntiandi, n. 58: AAS 68 (1976), 48.

[74] João Paulo II, Exort. apost. Christifideles laici,n. 30: AAS 81 (1989), 447.

[75] Ibid.: AAS 81 (1989), 448.

[76] Cf. Ibid.: AAS 81 (1989), 447.

[77] Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 130: AAS 105 (2013), 1074-1075.

[78] Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares – Congregação para os Bispos, Notas Directivas Mutuae relationes, n. 12: AAS 70 (1978), 480-481; Cf. João Paulo II, Discurso aos pertencentes aos movimentos eclesiais e às novas comunidades na vigília de Pentecostes (30 de maio de 1998), n. 6; Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXI, 1 (1998), 1122.

[79] Paulo VI, Exort. apost. Evangelii nuntiandi, n. 58: AAS 68 (1976), 48.

[80] Ibid.; cf. Francisco, Exort. Apost. Evangelii gaudium, nn. 174-175: AAS 105 (2013), 1092-1093.

[81] João Paulo II, Exort. apost. Chistifideles laici, n. 30: AAS 81 (1989), 448.

[82] Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 177: AAS 105 (2013), 1094.

[83] João Paulo II, Exort. apost. Christifideles laici, n. 30: AAS 81 (1989), 448.

[84] Ibid.

[85] Cf. Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, nn. 184, 221: AAS 105 (2013), 1097, 1110-1111.

[86] Ibid., n. 186: AAS 105 (2013), 1098.

[87] Cf. Congregação para a doutrina da fé, Carta Communionis notio, n. 7: AAS 85 (1993), 842.

[88] Ibid., n. 9: AAS 85 (1993), 843.

[89] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 23.

[90] Id., Decr. Christus Dominus, n. 11.

[91] Cf. Ibid., 2; Congregação para a doutrina da fé, Carta Communionis notio, nn. 13-14, 16: AAS 85 (1993), 846-848.

[92] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Chistus Dominus, n. 11.

[93] Cf. Ibid., 35; Código de Direito Canónico, can. 591; Código dos Cânones das Igrejas Orientais, can. 412, § 2; Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares – Congregação para os Bispos, Notas Directivas Mutuae relationes, n. 22: AAS 70 (1978), 487.

[94] Cf. Congregação para a doutrina da fé, Carta Communionis notio, n. 15: AAS 85 (1993), 847.

[95] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, n. 8; Catecismo da Igreja Católica, nn. 888-892.

[96] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, n. 8.

[97] Id., Const. dogm. Lumen gentium, n. 10.

[98] João Paulo II, Exort. apost. Pastores gregis (16 de outubro de 2003), n. 10: AAS 96 (2004), 838.

[99] Cf. Id., Exort. apost. Christifideles laici, n. 29: AAS 81 (1989), 443-446.

[100] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 10.

[101] Id., Const. past. Gaudium et spes, n. 52; cf. João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio (22 de novembro de 1981), n. 72: AAS 74 (1982), 169-170.

[102] Cf. João Paulo II, Exort. apost. Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), n. 68: AAS 84 (1992), 777.

[103] Cf. ibid., nn. 31, 68: AAS 84 (1992), 708-709, 775-777.

[104] Cf. Código de Direito Canónico, can. 265; Código dos Cânones das Igrejas Orientais, can. 357, § 1.

[105] Cf. Código de Direito Canónico, can. 273; Código dos Cânones das Igrejas Orientais, can. 370.

[106] Cf. Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares – Congregação para os Bispos, Notas directivas Mutuae relationes, nn. 19, 34: AAS 70 (1978), 485-486, 493.

[107] João Paulo II, Exort. apost. Vita consecrata, n. 31: AAS 88 (1996), 404-405.

[108] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 43.

[109] Ibid., 44; cf. Decr. Perfectae caritatis, n. 5; João Paulo II, Exort. apost. Vita consecrata, nn. 14, 30: AAS 88 (1996), 387-388, 403-404.

[110] Cf. Código de Direito Canónico, can. 307 § 3; Código dos Cânones das Igrejas Orientais, can. 578, § 3.

[111] Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e sociedades de vida apostólica, Instr. Partir de Cristo (19 de maio de 2002), n. 30: Enchiridion Vaticanum, 21, 472.

[112] Cf. João Paulo II, Exort. apost. Pastores dabo vobis, nn. 27-30: AAS 84 (1992), 700-707.

[113] Cf. Paulo VI, Carta enc. Sacerdotalis caelibatus (24 de junho de 1967): AAS 59 (1967), 657-697.

[114] Bento XVI, Exort. apost. Sacramentum caritatis, n. 24: AAS 99 (2007), 124.

[115] Cf. João Paulo II, Exort. apost. Pastores dabo vobis, n. 29: AAS 84 (1992), 703-705; Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 16.

[116] A forma jurídica mais simples para o reconhecimento das realidades eclesiais de natureza carismática é ainda hoje a da Associação privada de fiéis (cf. Código de Direito Canónico, cann. 321-326; Código dos Cânones das Igrejas Orientais, cann. 573, § 2 – 583). No entanto, devem considerar-se atentamente também outras formas jurídicas com as suas características específicas próprias, como, por exemplo, as Associações públicas de fiéis (cf. Código de Direito Canónico, cann. 312-320; Código dos Cânones das Igrejas Orientais, cann. 573, § 1 – 583), as Associações de fiéis “clericais” (cf. Código de Direito Canónico, can. 302), os Institutos de vida consagrada (cf. Código de Direito Canónico, cann. 573-730; Código dos Cânones das Igrejas Orientais, cann. 410-571), as Sociedades de vida apostólica (cf. Código de Direito Canónico, cann. 731-746; Código dos Cânones das Igrejas Orientais, can. 572) e as Prelaturas pessoais (cf. Código de Direito Canónico, cann. 294-297).

[117] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 62.

[118] Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium, n. 287: AAS 105 (2013), 1136.

 

Nada une mais a Deus do que um ato de misericórdia

Por | PALAVRA DA IGREJA

Primeira meditação do Papa Francisco nos exercícios espirituais aos sacerdotes e seminaristas, no contexto do Jubileu Sacerdotal.

Hoje pela manhã o Papa Francisco pronunciou a sua primeira meditação desse Jubileu dos sacerdotes, na Basílica Papal de São João de Latrão.

Trata-se dos Exercícios espirituais aos  sacerdotes e seminaristas que participam, em Roma, do Jubileu dos Sacerdotes que teve início esta quarta-feira (1º/06).

“O nome de Deus é Misericórdia. Nada une mais a Deus do que um ato de misericórdia, quer se trate da misericórdia com que o Senhor perdoa os nossos pecados, quer se trate da graça que nos dá para praticarmos as obras de misericórdia em seu nome”, disse Francisco.

Segundo o Papa, “a misericórdia nos impele a passar do pessoal ao comunitário”. Neste processo, a oração é um elemento importante e Francisco deu aos sacerdotes e seminaristas três sugestões para a oração pessoal nestes Exercícios espirituais.

A primeira tem a ver com dois conselhos práticos dados por Santo Inácio de Loyola, que diz: «Não é o muito saber que enche e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas de Deus interiormente». Santo Inácio acrescenta que, onde uma pessoa encontrar o que deseja e sentir gosto, ali se há de deter para rezar «sem ânsia de passar adiante, até que o satisfaça».

A segunda sugestão diz respeito a uma forma nova de usar a palavra misericórdia. “É preciso usar de misericórdia, ‘misericordiar’ em espanhol, para receber misericórdia, para ‘ser misericordiado’. O fato de a misericórdia pôr em contato uma miséria humana com o coração de Deus, faz desencadear imediatamente a ação; não se pode meditar sobre a misericórdia, sem pôr tudo em prática. Por isso, na oração, não nos ajuda intelectualizar. Com a ajuda da graça, o nosso diálogo com o Senhor deve se concretizar sobre o meu pecado que requer que a misericórdia do Senhor pouse sobre mim, o pecado de que sinto mais vergonha e maior desejo de reparar”, sublinhou ainda o Santo Padre.

A última sugestão do Papa tem em vista o fruto dos Exercícios espirituais, isto é, “pedir a Deus a graça de ser sacerdotes mais «misericordiados» e mais misericordiosos. De se concentrar na misericórdia, porque esta é a realidade essencial, definitiva”.

“A misericórdia nos faz experimentar a nossa liberdade e, nisto, podemos experimentar a liberdade de Deus, que «usa de misericórdia com quem for misericordioso”.

“Através dos degraus da misericórdia podemos descer até o ponto mais baixo da condição humana – incluindo fragilidade e pecado – e subir até o mais alto da perfeição divina: «Sede misericordiosos, perfeitos, como o vosso Pai é misericordioso». Mas sempre e só para «colher» mais misericórdia. Se as nossas estruturas não vivem, mas são usadas para receber melhor a misericórdia de Deus e para ser mais misericordiosas com os outros, podem se transformar em algo muito diferente e contraproducente”, advertiu o Papa.

Segundo Francisco, “é importante que cada um se situe na tensão fecunda em que nos coloca a misericórdia do Senhor: não só pecadores perdoados, mas pecadores dignificados. Sem a misericórdia ou nos cremos justos como os fariseus ou nos afastamos como aqueles que não se sentem dignos. Nos dois casos, o nosso coração se endurece”.

“Este retiro espiritual se encaminha pela senda daquela simplicidade evangélica que compreende e realiza todas as coisas em chave de misericórdia; de uma misericórdia dinâmica que nos impele a agir no mundo”, concluiu Francisco. (Com informações Rádio Vaticano)

O Pecado da corrupção Dom Pedro Carlos

Por | PALAVRA DA IGREJA

corrupcaomaos_size_598_1Uma das maiores causas da grave situação que vivemos está na relação estabelecida com o dinheiro em nossa sociedade. Aceitamos pacificamente seu domínio sobre tudo. “A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano”, escreve o Papa Francisco (cf. EG n. 55). A síndrome da adoração do bezerro de ouro promove a especulação financeira e a autonomia absoluta do mercado. Em meio a tudo isso a corrupção corre solta como se fosse “regra do jogo”. A lei da selva que impõe o consumo como bem supremo, impõe também a ganância e a corrupção como parte do modo de vida regido pela mesma lei da selva na qual os mais espertos e mais fortes levam vantagem em tudo.

Ao contrário do que poderíamos pensar, a corrupção não é um fenômeno de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Está espalhada pelo mundo todo. A corrupção é considerada pela ONU o crime mais dispendioso de todos, causa de muitos outros. Ela tornou-se um dos traços característicos da sociedade pós-industrial. É um dos emblemas de nosso tempo: é a única “religião” que tem hoje uma vocação universal, sentencia Jean-Marie Guéhemo. A corrupção moral, referente aos costumes, grassa em todos os setores da vida social, mas a corrupção administrativa e financeira é geral. Hoje estamos em uma situação na qual desaparecem os referenciais éticos quando se trata de lidar com o dinheiro.

Ninguém nasce corrupto, corruptor ou ladrão. Antes de chegar a sê-lo, é certo que houve uma lenta preparação interior, formada de insensibilidade pelos direitos dos outros, sedução pelas presumidas vantagens do crime e enfim, as condições favoráveis que induzem à prática do crime já consentido no coração e na mente: a ocasião faz o ladrão! Os furtos diários, principalmente os praticados por pessoas ou gangues são chocantes, sobretudo quando se configuram como latrocínio. Porém, não deveriam ser menos chocantes os crimes de corrupção, em especial os de “colarinho branco”, que finalmente começam a ser investigados e punidos. O fato é que a corrupção também gera morte.

A burocratização da administração e da sociedade toda favorece a corrupção porque muitas pessoas e organismos acabam tomando decisão sobre vários assuntos e em meio a tantas pessoas e organismos que decidem, a corrupção é facilmente camuflada; e no fim, ninguém sabia de nada ou ninguém tem culpa de nada. Uma pergunta se impõe: é possível controlar a corrupção?

Somente uma reeducação para a justiça e o direito, no sentido de sobrepor o bem comum ao bem pessoal, a valorização dos princípios éticos no relacionamento social, poderiam coibir a corrupção. Torna-se necessária uma profilaxia moral, uma limpeza nas consciências e isto é em grande parte papel da educação. Aos que tem religião, se apela para que sejam praticantes, porque a prática da própria fé sempre indica o caminho da caridade, do altruísmo para com o próximo, o que exclui a exploração e a corrupção.

Na Bíblia podemos ler: “Não roubarás” (Dt 5,19), e ainda: “Nem ladrões nem os avarentos nem os injuriosos herdarão o Reino de Deus” (1Cor 6,10). Este é o sétimo mandamento da Lei de Deus dada a nós por Moisés, que prescreve a prática da justiça e da caridade na administração. Este mandamento é aceito pelas três grandes religiões monoteístas que perfazem dois terços da humanidade: judaísmo, cristianismo e islamismo. É um mandamento contra os corruptos e corruptores.

Antigamente se dizia: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou ela acaba com o Brasil”, hoje se pode dizer: “Ou o Brasil acaba com a corrupção ou ela acaba com o Brasil”. A corrupção é pecado porque destrói os relacionamentos na sociedade, é uma injustiça e passa a ideia de que não existe Deus além do dinheiro. É preciso combater a corrupção para sobrevivermos.

Dom Pedro Cipollini – Bispo de Santo André

Escrito para o Jornal Diário do Grande ABC, Maio de 2016.

Fonte: Site Diocese: http://www.diocesesa.org.br/o-pecado-da-corrupcao/

Tipos de cristãos: múmias, errantes, teimosos, meio-termo

Por | PALAVRA DA IGREJA

Na homilia de hoje, na capela da casa Santa Marta, o Papa Francisco fez uma breve lista dos vários tipos de cristãos que podemos encontrar ao longo da vida de fé: cristãos-múmias, cristãos errantes, cristãos teimosos, cristãos meio-termo – aqueles que se encantam diante de um belo panorama e ficam parados. Gente que por uma ou outra razão se esqueceu que o único caminho justo – como recorda o Evangelho do dia – é Jesus, que confirma a Tomé: “Eu sou o caminho, quem me viu, viu o Pai”.

“Um cristão que não caminha, que não percorre a estrada, é um cristão um pouco ‘paganizado’: fica ali, parado, não vai avante na vida cristã, não faz florescer as bem-aventuranças em sua vida, não faz obras de misericórdia… É estático. Desculpem-me a palavra, mas é como se fosse uma ‘múmia’, uma ‘múmia espiritual’. Parados… Não fazem mal, mas não fazem bem”.

Por outro lado, explicou Francisco, “a tragédia é ser teimosos e dizer ‘este é o caminho’ e não deixar que a voz do Senhor nos diga ‘volte atrás e retome o caminho certo’. E depois, existe a quarta categoria, a dos cristãos que caminham, mas não sabem para onde vão”.

“São errantes na vida cristã, vagantes. A vida deles é vagar, aqui e ali, e perdem assim a beleza de se aproximar de Jesus na vida de Jesus. Perdem o caminho porque vagam e, muitas vezes, esse vagar, vagar errante, os levam a uma vida sem saída: o muito vagar se transforma em labirinto e depois não sabem sair. Perderam o chamado de Jesus. Não têm bússola para sair e vagam; procuram. Há outros que no caminho são seduzidos por uma beleza, por algo e param na metade do caminho, fascinados por aquilo que veem, por aquela ideia, por aquela proposta, por aquela paisagem … E param! A vida cristã não é um fascínio: é uma verdade! É Jesus Cristo!”.

Observando o quadro, refletiu Francisco, podemos nos questionar. Como vai o “caminho cristão que iniciei no Batismo? Está parado? Errei o caminho? Vago continuamente e não sei aonde ir espiritualmente? Paro diante das coisas que gosto: a mundanidade, a vaidade” ou vou “sempre adiante”, tornando “concretas as Bem-aventuranças e as Obras de misericórdia?”. Porque “o caminho de Jesus – concluiu – é tão cheio de consolações, de glória e também de cruzes. Mas sempre com paz na alma”:

“Esta é a nossa pergunta do dia, façamo-la, cinco minutinhos … Como eu sou neste caminho cristão? Parado, errante, vagando, parando diante das coisas de que gosto ou diante de Jesus ‘Eu sou o caminho’? E peçamos ao Espírito Santo que nos ensine a caminhar bem, sempre! E quando nos cansarmos, façamos uma pequena pausa e avante. Peçamos esta graça”.

Fonte: Zenit

“O dinheiro é inimigo da harmonia” – Papa Francisco

Por | PALAVRA DA IGREJA

Na homilia desta terça-feira, o Santo Padre convida a reler os Atos dos Apóstolos e entender como viviam as primeiras comunidades cristãs: ninguém passava necessidade porque tudo era comum.

Uma palavra sobre a qual é preciso um consenso – afirma o Papa no início da homilia – porque não se trata de uma concórdia qualquer, mas de um dom do céu para quem renasceu do Espírito Santo, como os primeiros cristãos:

“Nós podemos fazer acordos, uma certa paz… mas a harmonia é uma graça interior que somente o Espírito Santo pode promover. E estas comunidades viviam em harmonia, e os sinais da harmonia são dois: ninguém fica na necessidade, porque tudo era em comum. Em que sentido? Tinham um só coração, uma só alma e ninguém considerava o que lhe pertencia como propriedade, porque tudo era em comum. Ninguém deles era carente. A verdadeira ‘harmonia’ do Espírito Santo tem uma relação muito forte com o dinheiro: o dinheiro é inimigo da harmonia; o dinheiro é egoísta e, por isso, todos davam o que tinham para que não faltasse nada a ninguém”.

O Papa se detém sobre este aspecto e repete o exemplo virtuoso oferecido pelo trecho dos Atos, o de Barnabé, que vende sua terra e entrega o dinheiro aos Apóstolos. No entanto, os versículos seguintes, não incluídos na leitura do dia, propõem outro episódio, oposto ao primeiro, que Francisco cita: o de Ananias e Safira, um casal que finge dar o arrecadado com venda de suas terras, mas na realidade retém uma parte do dinheiro; uma escolha que para eles terá um preço muito amargo, a morte. Deus e o dinheiro são dois patrões “cujo serviço é irreconciliável”, repete Francisco, que logo depois esclarece também o equívoco que pode surgir sobre o conceito de ‘harmonia’. Não se trata – afirma – de ‘tranquilidade’.

“Uma comunidade pode ser muito tranquila, em que tudo vai bem: tudo funciona… Mas não está em harmonia. Uma vez, ouvi dizer de um bispo algo muito sábio: ‘Na diocese há tranquilidade. Mas se você tocar um problema, ou este ou aquele outro problema, logo começa a guerra’. Esta seria uma harmonia negociada, e esta não é a do Espírito Santo. É uma harmonia – digamos – hipócrita, como aquela de Ananias e Safira com aquilo que fizeram”.

Francisco conclui convidando à releitura dos Atos dos Apóstolos sobre os primeiros cristãos e sua vida em comum. “Nos fará bem”, disse ele, para entender como testemunhar a novidade em todos os ambientes em que se vive. Consciente de que, assim como para a harmonia, também no empenho do anúncio se colhe o sinal de outro dom:

“A harmonia do Espirito Santo nos dá esta generosidade de não ter nada próprio enquanto há alguém necessitado. A harmonia do Espírito Santo nos dá uma segunda postura: ‘Com grande força, os apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus, e todos regojizavam de grande favor’, isto é, de coragem. Quando existe harmonia na Igreja, na comunidade, existe coragem, a coragem de testemunhar o Senhor Ressuscitado”. (Fonte: Rádio Vaticano)

A Semana Santa mostra que o amor de Deus não tem limites

Por | PALAVRA DA IGREJA

O Papa Francisco começou hoje o tradicional encontro semanal das quartas-feiras com os fieis, entrando na Praça de São Pedro no papamóvel, acenando para as milhares de pessoas reunidas lá. O veículo que o levava deteve-se várias vezes e o Santo Padre abençoou as crianças e bebês que o rodearam.

As medidas de segurança para entrar na praça eram altas como de costume, aparentemente, não mais do que o normal, apesar dos atentados em Bruxelas na terça-feira que atingiu o coração da Europa. No que respeita ao programa da Semana Santa não haverá nenhuma mudança, de acordo com o indicado ontem pela secretaria de imprensa do Vaticano.

A catequese desta quarta-feira fria e com muito vento, apesar de ser o começo da primavera na Europa, começou com a leitura em vários idiomas do evangelho de Lucas. Em seguida o Pontífice explicou que nos três dias da Semana Santa devemos o Tríduo Pascal sentindo a misericórdia de Deus.

Ao resumir a catequese em português disse:

“Durante o Tríduo Pascal, celebramos o mais importante mistério da nossa fé, um mistério que nos fala de misericórdia, de um amor que não conhece obstáculos. Fala-nos de como Jesus nos amou até o fim, de como quis partilhar os sofrimentos de toda a humanidade, permanecendo presente junto das vicissitudes pessoais de cada um de nós. Na Quinta-feira Santa, ao celebrar a instituição da Eucaristia, refletimos sobre amor que se faz serviço; sobre a presença que sacia a fome dos homens e que nos impele a fazer o mesmo com os outros. Na Sexta-feira, com a Paixão de Cristo, deparamo-nos com o momento culminante do amor, um amor que não exclui ninguém. Por fim, no Sábado, contemplamos, no silêncio de Deus, o amor que se solidariza com todos os abandonados e que se faz espera pela vida nova ressuscitada. Assim, o Tríduo Pascal é um convite a fixar o olhar na paixão e morte do Senhor, para poder acolher no coração a grandeza do seu amor, na espera da Ressurreição”.

Já no final da audiência o Papa disse que “com o coração cheio de dor”, garante a sua oração e proximidade “ao querido povo belga”. Em particular aos familiares das vítimas e todos os feridos, bem como todas as pessoas de boa vontade às quais pede “perseverar na oração” e pedir ao Senhor nesta semana santa, que “console todos os corações aflitos e transforme os corações destas pessoas cegas pelo fundamentalismo cruel”.

E pediu para se rezar em silêncio por intercessão da Virgem: “Agora, em silêncio rezemos pelos mortos, os feridos e por todos os familiares, bem como por todo o povo belga”, atingido por este drama.

A audiência concluiu com a benção dos objetos religiosos que os fieis levaram e com o canto do ‘Pater Noster’.

Casa co­mum: nossa res­pon­sa­bi­li­dade

Por | PALAVRA DA IGREJA

A pre­o­cu­pa­ção com a na­tu­reza, o clima e a de­gra­da­ção do meio am­bi­ente é ge­ral. Tanto as­sim que a Carta En­cí­clica do Papa Fran­cisco so­bre a eco­lo­gia (Lau­dato sì) foi muito bem re­ce­bida. A Igreja no Bra­sil de­se­jando sintonizar-se com o Evan­ge­lho da Vida co­loca para a re­fle­xão dos cris­tãos e pes­soas de boa von­tade, a Cam­pa­nha da Fra­ter­ni­dade (CF), iniciando-a na quarta feira de cin­zas, prin­cí­pio da qua­resma.

A vi­o­lên­cia que está no co­ra­ção hu­mano fe­rido pelo pe­cado, vislumbra-se nos sin­to­mas de do­ença que no­ta­mos no solo, na água, no ar e nos se­res vi­vos. Por isso, en­tre os po­bres, os mais aban­do­na­dos e mal­tra­ta­dos, constata-se que nosso pla­neta Terra está opri­mido e de­vas­tado, o ser hu­mano tem se es­que­cido que é a terra, a casa co­mum que nos abriga. Terra que não pode con­ti­nuar a ser des­truída de­vido à ga­nân­cia e falta de cui­dado.

Neste ano de 2016, a Cam­pa­nha da Fra­ter­ni­dade será ecu­mê­nica, ou seja, re­a­li­zada em união com ou­tras de­no­mi­na­ções cris­tãs. O tema é in­di­ca­tivo: “Casa co­mum: nossa res­pon­sa­bi­li­dade”. Por casa quer-se di­zer nosso pla­neta Terra, es­paço vi­tal em que es­ta­mos, cri­a­ção de Deus que deve ser pre­ser­vada com res­peito e ca­ri­nho.

A CF deste ano tem por lema: “Quero ver o di­reito bro­tar como fonte e cor­rer a jus­tiça qual ri­a­cho que não seca”. Frase que está na Bí­blia lá no pro­feta Amós (Am 5,24).

Qual é o ob­je­tivo es­pe­cí­fico da CF deste ano? O ob­je­tivo é sem­pre a vida, mas, com um en­fo­que par­ti­cu­lar. Neste ano há o de­sejo de se re­fle­tir e tra­ba­lhar para as­se­gu­rar o di­reito ao sa­ne­a­mento bá­sico. Di­reito este para to­das as pes­soas, as­sim so­mos cha­ma­dos a empenharmo-nos, à luz da fé, por po­lí­ti­cas pú­bli­cas e ati­tu­des res­pon­sá­veis, que ga­ran­tam a in­te­gri­dade e o fu­turo de nossa Casa Co­mum.

O sa­ne­a­mento bá­sico é um di­reito hu­mano fun­da­men­tal, des­pre­zado em mui­tos lu­ga­res. Es­pe­ci­al­mente onde o des­caso, a in­com­pe­tên­cia e a cor­rup­ção im­pe­dem de se exe­cu­tar tan­tos pro­je­tos, que po­de­riam me­lho­rar a qua­li­dade de vida da po­pu­la­ção. Desta ma­neira, a CF de­seja mo­bi­li­zar as cons­ci­ên­cias e pro­mo­ver o com­pro­me­ti­mento com a pre­ser­va­ção de nossa Casa Co­mum: nosso pla­neta Terra.

Qual a mo­ti­va­ção desta cam­pa­nha e deste tema e por que ser ecu­mê­nica? A mo­ti­va­ção não é ou­tra se não a nossa fé em Je­sus Cristo. Esta fé exige de nós a prá­tica da ca­ri­dade que é amor ser­viço. Je­sus disse que veio para ser­vir e que es­tava no meio de nós como aquele que serve. Isto por­que a prova de que ama­mos é o ser­viço aos ir­mãos, em es­pe­cial aos que mais so­frem e são mais frá­geis.

Pre­ci­sa­mos acei­tar o con­vite de re­fle­tir e de nos em­pe­nhar­mos na pro­mo­ção da vida digna para to­dos, bus­cando pro­fe­ti­ca­mente ques­ti­o­nar as es­tru­tu­ras que cau­sam ou le­gi­ti­mam vá­rios ti­pos de ex­clu­são; es­pe­ci­al­mente aquela que priva do sa­ne­a­mento bá­sico tan­tos e tan­tos se­res hu­ma­nos, obri­ga­dos a vi­ver de forma in­digna.

A falta de sa­ne­a­mento bá­sico tem a ver não só com falta de pla­ne­ja­mento e in­com­pe­tên­cia, mas tam­bém com a cor­rup­ção. Ela tem apa­re­cido como a prin­ci­pal pre­o­cu­pa­ção dos bra­si­lei­ros, mais que a pre­o­cu­pa­ção com a se­gu­rança e o de­sem­prego em cres­ci­mento. Os re­cur­sos para o sa­ne­a­mento bá­sico mui­tas ve­zes não che­gam. Não há muito in­te­resse em cons­truir rede de es­goto e de­mais ben­fei­to­rias que não são tão vi­sí­veis como pon­tes, pré­dios e ou­tros edi­fí­cios. Este ano é ano elei­to­ral e a po­pu­la­ção pre­cisa le­var ao “tri­bu­nal das ur­nas” de vo­ta­ção, to­dos os en­car­re­ga­dos de me­lho­rar a qua­li­dade de vida da po­pu­la­ção e não cum­pri­ram seu de­ver.

Va­mos vi­ver bem esta CF preparando-nos du­rante a qua­resma, para ce­le­brar na Pás­coa, a vi­tó­ria de Je­sus Cristo que é nossa tam­bém. Deus aben­çoe a to­dos.

Dom Pe­dro Car­los Ci­pol­lini

Bispo de Santo An­dré

A misericórdia não é indiferente!

Por | PALAVRA DA IGREJA

A misericórdia não pode ficar indiferente diante do sofrimento dos oprimidos.

Na Audiência Geral, o Santo Padre recordou que a misericórdia de Deus sempre esteve presente na história do povo de Israel.

O Papa Francisco se encontrou nesta quarta-feira com milhares de pessoas provenientes de todo o mundo, na Praça de São Pedro para a tradicional Audiência Geral. Depois de algumas semanas realizando a Audiência na Sala Paulo VI por causa do frio, esta semana voltou à Praça, para receber mais pessoas.

Com grande entusiasmo e emoção, os peregrinos receberam o Santo Padre em sua chegada a bordo do papamóvel. Depois de passar pelos corredores da Praça de São Pedro abençoando aos presentes, o Papa prosseguiu sua série de catequeses sobre a misericórdia.

Além disso, fez hoje um anúncio. O Pontifício Conselho Cor Unum, por ocasião do Jubileu da Misericórdia, promove um dia de retiro espiritual para grupos que se dedicam ao serviço da caridade. A jornada, que deve ser realizada em todas as dioceses durante Quaresma, será uma “ocasião para refletir sobre o chamado a ser misericordioso como o Pai”, explicou. Por isso,  Francisco convidou a acolher esta proposta utilizando as instruções e manuais elaborados pelo Cor Unum.

No resumo feito em português, o Santo Padre Francisco indicou que como no texto da Sagrada Escritura lido ao início da catequese, “Deus escutou os gemidos dos filhos de Israel na servidão”: “Na sua misericórdia, atende o grito de socorro; não desvia o olhar para não ver, não é indiferente ao sofrimento humano”.

Ele explicou que “o Senhor intervém para salvar, suscitando homens capazes de ouvir o gemido do sofrimento e agir em favor dos oprimidos”. Como mediador de libertação para o seu povo, envia Moisés, “que vai ter com o Faraó para o convencer a deixar partir Israel e depois guia-o no caminho para a liberdade”.

Ele recordou que Moisés, quando era menino, “fora salvo das águas do rio Nilo pela misericórdia divina; e agora é feito mediador daquela mesma misericórdia a favor do seu povo, permitindo-lhe nascer para a liberdade salvo das águas do Mar Vermelho”.

E sublinhou que “a misericórdia de Deus atua sempre para salvar”. Através do seu servo Moisés, o Senhor guia Israel no deserto como se fosse um filho, educa-o na fé e faz aliança com ele criando um vínculo fortíssimo de amor, uma relação semelhante à que existe entre pai e filho e entre marido e esposa. “É uma relação particular, exclusiva, privilegiada de amor, fazendo dos israelitas «um reino de sacerdotes e uma nação santa», afirmou Francisco.

“Vede a que ponto chega a misericórdia divina! Pois bem, é isto mesmo que nós próprios nos tornamos para Deus, deixando-nos salvar por Ele e acolhendo a sua aliança”, destacou o Papa.

“A misericórdia divina torna o homem precioso, como um tesouro pessoal que pertence ao Senhor, que Ele guarda e no qual Se compraz. Tornamo-nos jóias preciosas nas mãos do Pai bom e misericordioso”, afirmou Francisco.

Em seguida, ele cumprimentou os peregrinos de língua portuguesa: “Queridos peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! A todos vos saúdo, especialmente aos fiéis de Brasília e São José dos Campos, desejando-vos que nada e ninguém possa impedir-vos de viver e crescer na amizade de Deus Pai; mas deixai que o seu amor sempre vos regenere como filhos e vos reconcilie com Ele e com os irmãos. Desça, sobre vós e vossas famílias, a abundância das suas bênçãos”.

Pouco antes das saudações em italiano, um grupo de circo fez um breve show com acrobacias e dança, ‘arrancando’ sorrisos e aplausos de Francisco, que dirigiu aos artistas algumas palavras de agradecimento: “Vocês são criadores de beleza e promovem a beleza, e a beleza faz bem para a alma. A beleza nos aproxima de Deus”.

Para encerrar a audiência, o Santo Padre dedicou algumas palavras aos jovens, doentes e recém-casados. Lembrando que amanhã celebra-se a festa de São Tomás de Aquino, patrono das escolas católicas, o Papa pediu que seu exemplo impulsione os jovens “a enxergarem em Jesus misericordioso, o único mestre da vida”. Aos doentes expressou o desejo que a intercessão do santo obtenha para eles “a serenidade e a paz presentes no mistério da cruz”. Concluindo, pediu que a doutrina de São Tomás encoraje os recém-casados, a confiar na sabedoria do coração para realizar a missão confiada a eles.

No “fracasso” da cruz Cristo revela qual é a força de seu reino

Por | PALAVRA DA IGREJA

Na Solenidade de Cristo Rei do Universo, celebrada ontem pela Igreja, o Papa Francisco refletiu sobre a necessidade que o cristão tem de entender que a força do reino do Senhor é o amor e que Ele se revela como soberano no “fracasso” da cruz no calvário, como o fez o bom ladrão.

Diante de milhares de fiéis presentes, o Santo Padre explicou: “Dizer que ‘Jesus deu a vida pelo mundo’ é verdadeiro, mas é mais belo dizer: ‘Jesus deu a sua vida por mim’. E hoje aqui na praça, cada um de nós diga em seu coração: ‘Deu a vida por mim’, para salvar cada um de nós dos nossos pecados”.

“Quem entendeu isto? Entendeu bem um dos dois malfeitores que foram crucificados com Ele, conhecido como o ‘bom ladrão’, que suplica: ‘Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino’. Ele era um malfeitor, era um corrupto que foi condenado à morte por causa da brutalidade que cometeu na vida. Mas ele viu na atitude de Jesus, na humildade de Jesus o amor. Esta é a força do reino de Cristo: o amor”.

Depois de afirmar que Cristo se revelou como rei na cruz, o Papa indicou que quem olha para ela “não pode não ver a surpreendente gratuidade do amor, mas algum de vocês poderia dizer: ‘mas, Padre, isto foi um fracasso!’ É justamente no fracasso do pecado – o pecado é um fracasso –, no fracasso da ambição humana, que podemos ver o triunfo da cruz, aí está a gratuidade do amor”.

“No fracasso da cruz se vê o amor, este amor que é gratuito, que Jesus nos dá. Falar de potência e de força para o cristão, significa fazer referência ao poder da Cruz e à força do amor de Jesus: um amor que permanece firme e íntegro, mesmo diante da recusa, que surge como o cumprimento de uma vida gasta na oferta total de si em favor da humanidade”, prosseguiu o Pontífice.

“No calvário, os circunstantes e os líderes ridicularizam Jesus pregado na cruz e lançam o desafio: ‘Salva-te a ti mesmo, e desce da cruz’. Mas, paradoxalmente a verdade de Jesus é aquela que em tom de zombaria seus adversários lançam sobre Ele: ‘não pode salvar-se a si mesmo!’”.

Em seguida, o Papa precisou: “Se Jesus tivesse descido da cruz, teria cedido à tentação do príncipe deste mundo, ao invés, Ele não salva a si mesmo justamente para poder salvar os outros, porque deu a sua vida por nós, por cada um de nós”.

Quando Jesus se apresenta ante o Pilatos como rei de um reino que “não é deste mundo”, isto “não significa que Cristo seja rei de outro mundo, mas rei de outra maneira, mas é rei neste mundo”.

“Trata-se de uma contraposição entre duas lógicas: a lógica mundana apoiada na ambição e na competição combate com as armas do medo, da chantagem e da manipulação das consciências. A lógica do Evangelho, a de Jesus, ao contrário, expressa na humildade e na gratuidade, afirma-se silenciosamente, mas eficazmente com a força da verdade”, enfatizou o Santo Padre.

“Olhemos para a cruz do bom ladrão e digamos todos juntos aquilo que disse o bom ladrão: ‘Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino’. Pedir a Jesus, quando nos encontramos frágeis, pecadores, derrotados, para nos guardar e dizer: ‘O Senhor está aí. Não se esqueça de mim’”.

Ao finalizar sua reflexão, o Papa Francisco disse: “Diante de tantas dilacerações no mundo e das demasiadas feridas na carne dos homens, peçamos a Nossa Senhora que nos ampare no nosso esforço a fim de imitar Jesus, nosso rei, tornando presente o seu reino com gestos de ternura, de compreensão e de misericórdia”.

Rezem a São João Paulo II para que a Igreja renove o valor do matrimônio

Por | PALAVRA DA IGREJA

O Papa Francisco recordou São João Paulo II, o Papa da família (como lhe chamou ao canonizá-lo em abril de 2014), durante a Audiência Genal de hoje, e pediu lhe seja encomendado o Sínodo. A memória deste santo se celebra amanhã, 22 de outubro, dia do início de seu pontificado.

“Pela intercessão de São João Paulo II oremos para que o Sínodo dos Bispos, que está por terminar, renove em toda a Igreja o sentido do inegável valor do matrimônio indissolúvel e da família sã, apoiada no amor recíproco do homem e da mulher, e sobre a graça divina. Abençoo de coração todos que estão presentes aqui e seus entes queridos”.

Ao final de sua catequese, o Pontífice pediu orações pelos bispos que participam do Sínodo da Família em Roma, que concluirá no domingo, 25 de outubro.

Ao saudar os fiéis poloneses, Francisco disse: “Queridíssimos, amanhã celebramos a memória de São João Paulo II, o Papa da família. Sejam bons seguidores em sua solicitude por suas famílias e todas as famílias, em especial pelas que vivem no sofrimento espiritual e material. Que a fidelidade ao amor professado, às promessas feitas e aos compromissos que derivam da responsabilidade, sejam sua fortaleza”.

Em seguida, o Santo Padre saudou os doentes, jovens e recém-casados e recordou que amanhã se celebra a memória litúrgica de São João Paulo II.

“Queridos jovens, que seu testemunho de vida seja exemplo para seu caminho; queridos doentes, levem com alegria a cruz do sofrimento como ele nos ensinou com o exemplo; e vocês, queridos esposos recém-casados, peçam sua intercessão para que em sua nova família não falte nunca o amor”.

Ao finalizar, o Papa Francisco recordou que em outubro se celebra o mês do Rosário e das missões, e pediu para que os fiéis rezem à Virgem “para que nos ajude a compreender a vontade de Deus”.

Homilia do Papa: O cristão é homem e mulher de história

Por | PALAVRA DA IGREJA

Em Santa Marta, Francisco destacou a história e o serviço como dois aspectos da identidade do cristão.

“A história e o serviço”, na homilia da Missa celebrada esta manhã na capela da Casa Santa Marta, o Papa Francisco se deteve sobre esses “dois aspectos da identidade do cristão”.

Antes de tudo, a história, disse Francisco. São Paulo, São Pedro e os primeiros discípulos “não anunciavam um Jesus sem história: eles anunciavam Jesus na história do povo, um povo que Deus fez caminhar por séculos para chegar” à maturidade, “à plenitude dos tempos”.

Deus entra na história e caminha com seu povo: “O cristão é homem e mulher de história, porque não pertence a si mesmo, faz parte de um povo, um povo que caminha. Não se pode pensar em um egoísmo cristão, não.., isso é errado. O cristão não é um homem, uma mulher espiritual de laboratório, é um homem, é uma mulher espiritual que faz parte de um povo, que tem uma história longa e continua caminhando até o retorno do Senhor”.

“Quantos pecadores, quantos crimes. Também hoje Paulo menciona o Rei Davi, santo, mas antes de se tornar santo foi um grande pecador. Um grande pecador. Na nossa história devemos reconhecer que somos santos e pecadores. E a minha história pessoal, de cada um, deve reconhecer o pecado, o próprio pecado e a graça do Senhor, que está conosco, acompanhando-nos no pecado para perdoar, e acompanhando-nos na graça. Não há identidade cristã sem história”.

O segundo aspecto da identidade cristã é o serviço: “Jesus lava os pés dos discípulos convidando a fazer o mesmo: servir”. “A identidade cristã é o serviço, não o egoísmo”, afirmou Francisco. “Mas padre, todos nós somos egoístas”. Ah sim? É um pecado, é um hábito do qual devemos nos distanciar. Pedir perdão, que o Senhor nos converta. Somos chamados para servir. Ser cristão não é uma aparência ou uma conduta social, não é maquiar a alma, para que seja um pouco mais bonita. Ser cristão é fazer o que Jesus fez: servir”.

O Papa nos exorta a fazer esta pergunta: “No meu coração o que eu faço mais? Faço-me servir pelos outros, uso os outros, uso a comunidade, a paróquia, a minha família, os meus amigos, ou sirvo, e estou servindo?”.

(Rádio Vaticano/ Edição: MEM)

(30 de Abril de 2015) © Innovative Media Inc.