De: “A Comunidade para mim” ao “Eu para a Comunidade”

Uma comunidade somente é comunidade quando a maioria de seus membros estiver fazendo a passagem de “a comunidade para mim” ao “eu para a comunidade”, quer dizer, quando o coração de cada um estiver se abrindo para cada membro, sem excluir ninguém. É a passagem do egoísmo para o amor, da morte para a ressurreição: é a Páscoa, passagem do Senhor, e também a passagem de uma terra de escravidão para uma terra prometida, a da libertação interior.

A comunidade não é uma coabitação, um quartel, um hotel ou uma pensão. Ela não é uma equipe de trabalho, e muito menos, um ninho de víboras. É o lugar em que cada um, ou a maioria está saindo das trevas do egocentrismo para a luz do amor verdadeiro.

“Não concedais nada ao espírito de competição, de vanglória, mas que cada um, por humildade, considere os outros superiores a si; não procureis os vossos próprios interesses, mas que cada um pense nos dos outros”.(Fl 2, 3-4)

O amor não é um sentimento, e nem uma emoção passageira, é uma atenção ao outro que pouco a pouco se torna compromisso, reconhecimento de uma aliança, de um sentimento de se pertencer mutuamente. É escutar o outro, se por em seu lugar, compreende-lo, é ver que ele é importante para mim. É responder aos seus apelos, às suas necessidades mais profundas, compadecer-se, sofrer com ele, chorar e alegrar-se quando se alegra. Amar é ficar feliz com a sua presença, triste com a sua ausência, é permanecer mutuamente e refugiar-se um no outro, o amor é uma força unificadora.

Se o amor é estar voltado para o outro, é também voltar juntos para as mesmas realidades, esperar e querer as mesmas coisas é comungar da mesma visão, do mesmo ideal. É querer que o outro se realize plenamente segundo os caminhos de Deus a serviço dos outros; é querer que ele seja fiel ao seu chamado e livre para amar com todas as dimensões do seu ser.

Temos os dois polos da comunidade: um sentimento de pertencer um ao outro, mas também o desejo que o outro vá sempre mais longe no seu Dom a Deus e aos outros, que ele seja mais luminoso, mais profundo na verdade e na paz.

Texto extraído de VANIER, Jean. Comunidade Lugar do perdão e da festa . São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1980 – CAPÍTULO I, pg.19.