O futuro da Igreja passa pelas pequenas comunidades cristãs

Entrevista com Christoph Schönborn

Cardeal Christoph Schönborn, de Viena, Áustria, é uma das figuras mais interessantes da Igreja global – um protegido intelectual e teológico do Papa Bento XVI, mas também conhecido pela sua disposição para fazer julgamentos pastorais surpreendentes. Schönborn, 67 anos, foi uma das figuras mais citadas no Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, e, no dia 23 de outubro, ele falou ao NCR às margens do Sínodo. A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 25-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Eu falei com diversas pessoas no Sínodo que ficaram impressionadas com o que o senhor disse sobre o fato de que esses encontros são uma oportunidade para que os bispos falem entre si sobre seus desafios pastorais.

No início do Sínodo, eu sugeri que compartilhássemos não tanto os desafios, mas sim nossas experiências. Como sucessores dos apóstolos, somos chamados a ser os primeiros evangelizadores. Todos nós temos experiências de todos os tipos, de alegrias, medos, sucessos, fracassos, e assim por diante, na evangelização. Nós todos nos perguntamos: “Eu realmente evangelizo?”. Eu prego muito, eu estou nas paróquias, eu escrevo cartas pastorais, e assim por diante, mas o que se quer dizer com a “Nova Evangelização” não é apenas o trabalho pastoral diário, que obviamente nós temos que fazer e fazemos com alegria, mas o que o Papa Bento XVI repetidamente nos diz e nos encoraja a fazer é ir ao encontro daqueles que já não tem, ou nunca tiveram, qualquer contato direto com o Evangelho. Esse é o verdadeiro desafio da Nova Evangelização.

Eu fiquei muito comovido por alguns exemplos no Sínodo de experiências reais compartilhadas do nosso trabalho de evangelização. É claro, nós também temos que falar sobre todas as questões da sociedade secular, da globalização, da dimensão social e de todos esses assuntos, e eu acho que nós tivemos um menu muito rico sobre o que está acontecendo em todo o mundo. As situações são todas diferentes, mas, mesmo assim, também são cada vez mais semelhantes. Alguns de nós, no entanto, também deram testemunhos realmente pessoais, e isso foi muito comovente.

Nesse espírito, deixe-me perguntar sobre algumas de suas recentes experiências pastorais na Áustria. Uma delas é o movimento dos padres, que alguns chamam de “rebelião dos padres”. Como as coisas estão agora em termos de sua relação com esse grupo?

Eu penso que todos os bispos austríacos têm um contato normal e regular com os padres que estão nesse movimento. Na minha diocese, alguns dos principais sacerdotes desse movimento estão no conselho presbiteral diocesano. Ainda no início deste mês, conversamos intensamente sobre as questões e os desafios desse grupo. Todos nós compartilhamos muitos deles. Os problemas e as questões que eles levantam são questões reais do campo.

A questão é como responder, como levar em conta esses desafios, e eu me atrevo a dizer que a maioria dos padres, assim como nós, bispos, como já mostramos em nossa recente carta pastoral, pensam que algumas das soluções propostas [por esse movimento] ficam aquém. Temos que cavar mais fundo, ver essas questões em um contexto mais amplo. Temos que ver isso como um desafio comum para todos os fiéis, padres, bispos e leigos, para lidar com uma situação em que, em muitos aspectos, nos tornamos uma minoria, mesmo que, numericamente, ainda possamos ser a maioria. Temos que aprender a lidar com essa situação de uma forma criativa.

O seu ponto de vista é de que consertar as estruturas da Igreja não é suficiente?

Exatamente. Precisamos assumir esse desafio [das estruturas da Igreja], porque é uma parte da realidade. Assim como muitas outras dioceses europeias fizeram nas últimas duas décadas, por exemplo, estamos caminhando para reestruturar o nosso trabalho pastoral.

Chegaremos a essa questão daqui a pouco, mas primeiro deixe-me perguntar: independentemente do quão desafiador possa ser, esse movimento sacerdotal também fez algo de bom para a Igreja na Áustria?

Eu tenho confiança neles, porque são sacerdotes próximos das pessoas que compartilham as suas preocupações. Às vezes, talvez, eu diria que a sua perspectiva precisa ser ampliada. O desafio é introduzir a sua perspectiva de base em outros aspectos que simplesmente não estão presentes em suas reflexões e propostas. Por exemplo, toda a questão da secularização não aparece nas suas propostas, e isso é surpreendente para mim. Vivemos em meio a uma secularização radical, e as nossas paróquias agora são minorias, mesmo na zona rural.

O senhor está comprometido em continuar a conversa?

Absolutamente. No nosso diálogo com a Cúria Romana, que está indo muito bem e é muito cordial, a questão tem sido mantida, especialmente à luz do que disse o Santo Padre em sua homilia na Quinta-feira Santa. Ele disse que há apenas uma possibilidade, que é a de avançar juntos. É claro, tem que haver limites. Todos os bispos da Áustria disseram muito claramente, por exemplo, que não se pode apelar à desobediência e ao mesmo tempo deter um cargo diocesano importante. Todo homem de negócios entende que essas duas coisas são incompatíveis. Eu já agi em certas circunstâncias para dizer: “Bem, aqui está o limite, e você precisa fazer a sua escolha”.

Passemos para a reestruturação da arquidiocese, que inclui o fechamento ou o agrupamento de dois terços das suas paróquias. Como isso tem sido recebido?

Isso está no início, e a recepção tem sido mista. Por um lado, eu sinto que muitos padres e leigos estão contentes porque algo está se mexendo, porque eles sabem que a estagnação não seria uma solução. Isso só aumentaria a depressão e o desânimo. Todos nós sabemos que as mudanças têm que ser feitas. Deixe-me dar um exemplo: a cidade de Viena tem 172 paróquias, o que é notavelmente mais do que tínhamos em 1945. O número de católicos, no entanto, encolheu para menos da metade do que tínhamos à época. Temos mais paróquias, igrejas e edifícios, mas significativamente menos católicos. Temos que fazer alguma coisa e nós estamos tentando fazer isso da maneira certa. Por exemplo, propomos dar igrejas a outras Igrejas cristãs que estão crescendo, como os coptas, os sérvios ortodoxos e os romenos ortodoxos, que estão ficando maiores. Em vez de vender igrejas ou simplesmente fechá-las, queremos que elas permaneçam abertas. Eu também não descarto que o que eu vi acontecer em Berlim poderia acontecer em Viena, que é o fato de que algumas igrejas da diocese que tiveram que fechar por razões financeiras são assumidas pelos leigos e se tornam centros vibrantes de vida espiritual em outro nível .

Esse é outro ponto sobre o seu plano de reestruturação. Não se trata apenas de fechar paróquias, mas o senhor também pediu um maior envolvimento dos leigos e leigas.

A ideia-chave, que tem estado extremamente presente no Sínodo, é a da pequena comunidade cristã. Muitos, muitos bispos de todo o mundo falaram sobre as pequenas comunidades cristãs. Nós vemos a necessidade e temos o desejo não de perder comunidades, mas sim de aumentar o seu número. Somos forçados a reduzir o número das estruturas paroquiais, com toda a sua administração e despesas, mas queremos favorecer um número crescente de pequenas comunidades cristãs lideradas por leigos e leigas – leigos que não estão disponíveis em tempo integral, que não são burocratas, mas sim voluntários. Essas são pessoas que vivem no campo, que fazem o que os leigos e leigas em muitas paróquias e em outras comunidades já fazem, que é assumir a responsabilidade por uma grande parte da vida da Igreja, dos aspectos vibrantes de vida da comunidade. Queremos implementar de forma mais explícita o grande tema do Vaticano II: o sacerdócio comum de todos os batizados e batizadas, com o sacerdócio ministerial ao seu serviço, promovendo a santidade do povo de Deus. Os leigos e leigas hoje – ou, eu diria, os batizados e batizadas hoje – são totalmente capazes de ser verdadeiras testemunhas da fé em Cristo em suas vidas diárias e, portanto, nas vidas das pequenas comunidades cristãs

O papel dos leigos e leigas é algo que o movimento dos padres também promoveu. É possível um campo comum entre vocês e eles?

Sim e não, porque eu acho que as ênfases são diferentes. A ênfase não deveria estar essencialmente nos leigos e leigas que assumem cargos na Igreja, mas sim em assumir a responsabilidade pela evangelização, pela missão. A nossa manchete para a arquidiocese de Viena é “a missão primeiro”. E nós ainda a dizemos em inglês! A questão é: nós realmente acreditamos que podemos atrair as pessoas a Cristo hoje? Simples assim.

Algumas das paróquias que vocês estão fechando poderiam se tornar centros para que os leigos e leigas liderem essa missão?

Em primeiro lugar, nós não estamos tanto fechando paróquias, mas sim agrupando-as. Por exemplo, cinco paróquias pequenas na zona rural irão formar um paróquia maior. As suas instalações, no entanto, poderiam ser usadas para animar algumas dessas pequenas comunidades cristãs. É claro, há também os movimentos eclesiais, as ordens religiosas, todos os tipos de grupos de oração, e assim por diante. Eles já são o que constitui a vida do dia a dia da Igreja.

O senhor vê outros sinais de esperança para a Nova Evangelização?

Eu gostaria de acrescentar mais um ponto. O que me impressiona é o número crescente de grupos juvenis de oração em todo o país. É como um fogo que se espalha por todo o país. Em toda parte, esses grupos de jovens estão surgindo, às vezes relacionados a uma paróquia ou mosteiro, mas muitas vezes são espontâneos. Eles apenas se encontram. Você pode ver algo novo borbulhando por aí… Há vida!

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br