Pecado grave contra a religião e coisas sagradas, profanação de lugares e objetos de caráter sagrado, atentado contra o que é digno de respeito. Estas definições estão no dicionário explicando a palavra “sacrilégio”.

Do ponto de vista cristão, o maior sacrilégio são as maldades cometidas contra as pessoas, criadas à semelhança do Criador (cf. Gn 1,26), degradando-as e, a muitas privando da vida, dom de Deus. O próprio Jesus mandou amar o próximo e: “Tudo o que fizerdes a um destes pequeninos é a mim que o fazes” (Mt 25,40). A tragédia no mundo hoje, com milhares de deportados, refugiados é consequência das guerras, fruto do sistema econômico fundado na ganância, adoração do dinheiro, do lucro: verdadeira idolatria que leva ao sacrilégio.

Porém, há outro tipo de sacrilégio que se difunde rapidamente em nosso meio. É a profanação de lugares sagrados da Igreja Católica. Vivemos num mundo secularizado, onde Deus não é levado a sério. Nada mais é sagrado; porque o ser humano não se respeita, não há respeito de uns para com os outros. Por isso perde-se a capacidade de admitir a presença de Deus na vida e na sociedade. Muitos não acreditam em Deus, ou se acreditam, vivem como se Ele não existisse. O descaso, a agressão e intolerância ao Sagrado tornaram-se corriqueiro em nossos dias. Isto é mau sinal.

Em nossa Diocese de Santo André que compreende o Grande ABC temos 100 (cem) paróquias e 264 comunidades. São raras as que não foram assaltadas. Ultimamente a situação se agrava. Estão sendo profanados os sacrários das igrejas. Assaltam de noite, arrombam as portas, vão direto ao sacrário que tem a porta arrebentada, as hóstias espalhadas e os objetos de culto danificados. Nada é roubado. A intenção parece ser agredir, destruir os sinais sagrados da presença de Jesus na Santíssima Eucaristia.

A Eucaristia é Sacramento de vida eterna, pois disse Jesus: “Quem come deste pão viverá eternamente” (Jo 6,51). É por excelência o mistério da fé: “O resumo e a súmula da nossa fé” (Catecismo n. 1327). “Na Eucaristia revela-se o desígnio de amor que guia toda a história da salvação. Nela, o Deus Trindade, que em si mesmo é amor (cf. 1Jo 4,7-8), envolve-se plenamente com a nossa condição humana”. (Bento XVI, SC 8). Foi Jesus que mandou consagrar o pão e o vinho, está nos evangelhos. Nem mesmo o monge Lutero, que é o pai do movimento protestante, negou a presença de Jesus na Eucaristia (cf. Knight A.- Anglin W., História do Cristianismo, Ed. CPAD, Rio, 1983, p.242).

Por que sucede isto? Por que existem pessoas que praticam atos agressivos, não respeitam o sagrado? Não podemos responder só com argumentos da sociologia. Seria reduzir a pessoa ao seu exterior. A questão vai além. Quem pratica tais atos está no desespero, vive sem valores, alienada, vive nas trevas, e por isso, sofre e faz os outros sofrerem. Não as amaldiçoamos, mas perdoamos, é o que Jesus fez e faria hoje.

Porém, nossa fé nos ensina que Deus está presente no mundo. Nossa fé nos ensina que Deus é luz e quem é da luz não anda nas trevas. Os filhos das trevas não gostam dos filhos da Luz. Os filhos da luz são todos aqueles que acreditam em Jesus e se reúnem em torno dele para viver seu mandamento de Amor. Este amor, que é muito forte, pode transformar as trevas em luz. Amor que pode acender a luz no coração dos que estão desesperados. Creiamos, nada nos separará do amor de Cristo (cf. Rm 8,35-39).

Apelo aos católicos, tristes com estes acontecimentos, que não desanimem e nem se deixem levar pela intolerância. Coragem! O Espírito do Mal sempre vai se lançar contra Deus, mas, não vencerá porque: Quem como Deus? (cf. Ap 12,1-18).

Artigo escrito por Dom Pedro Calos Cipollini para o jornal Diário do Grande Abc