Teu irmão não é teu inimigo – Vida em Comunidade

Os dois grandes perigos das comunidades são os “amigos” e os “inimigos”, depressa as pessoas parecidas se aproximam, é gostoso estar perto de quem tem as mesmas ideias que nós, que nos agradam, o mesmo modo de ver a vida o mesmo tipo de humor. Somos alimento um para o outro, há elogios mútuos: “você é maravilhoso” “você também é maravilhoso”, “nós somos ótimos, somos os inteligentes, os espertos”.

As amizades

As amizades humanas podem cair depressa num clube de medíocres, fechados em si. Só há um vangloriar-se mutuo e que leva a crer que somos os melhores. A amizade não é mais um encorajamento para ir para mais longe, para servir melhor os nossos irmãos, para sermos mais fiéis ao Dom que nos foi dado, para sermos mais atentos e dóceis ao Espírito. A comunidade torna-se sufocante e constitui uma barreira que impede de ir ao encontro dos outros e de suas necessidades. Com o passar do tempo certas amizades tornam-se uma dependência afetiva, que é uma espécie de escravidão.

“os meus inimigos”

Na comunidade há sempre pessoas que não nos entendem, que nos contradizem, que abafam o progresso das nossas vidas e da nossa liberdade. Sua presença parece uma ameaça, provoca agressividade ou uma forma de agressão servil. Outras pessoas fazem nascer dentro um sentimento de inveja e de ciúmes, são o que gostaríamos de ser, e sua presença nos lembra do que não somos. Sua irradiação e sua inteligência nos deixam diante de nossa indigência. Outras exigem muito de nós, não podemos suprir as suas carências afetivas. Estas pessoas se tornam “minhas inimigas”, elas nos colocam em perigo, e acabamos a odiá-las, não por querer, mas de uma forma psicológica. Mas, apesar de tudo, gostaríamos que estas pessoas não existissem, seu desaparecimento e sua morte seriam como que uma libertação.

“estender a mão ao inimigo”

É natural que em uma comunidade haja estas aproximações de sensibilidade, como os bloqueios de sensibilidades diferentes. Isto vem da imaturidade da vida ativa e de uma quantidade de elementos da nossa infância, sobre as quais não temos nenhum controle. Não podemos negá-los. E nos deixamos guiar pelas nossas emoções, logo haverá clãs no interior da comunidade, então deixará de ser comunidade para ser grupos de pessoas fechadas em si e bloqueadas em relação aos outros.

A comunidade somente é comunidade quando a maioria de seus membros decidiu conscientemente quebrar estas barreiras e sair do aconchego das “amizades” para estender a mão ao “inimigo”. A comunidade, na realidade, nunca se realiza plenamente, está sempre em progressão para um amor maior, ou está em regressão.

A mensagem de Jesus é clara:

“Eu vos digo, amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, rezai por aqueles que vos maltratam. Ao que lhe bate em um lado do rosto oferece-lhe o outro… se amardes somente aqueles que vos amam, que fazeis de especial? Pois mesmo os pecadores amam aqueles que os amam”.(Lc 6, 27 ss.)

“simpatia e antipatias”

Os “inimigos” nos causam medo, sua agressividade e atitudes dominadoras sufocam-nos. Na verdade ele me faz tomar consciência de uma imaturidade, de uma fraqueza interior que tenho, talvez seja isto que recuso olhar. Os que criticam os outros é porque se veem neles, e recusam-se a admitir. Os “amigos” são aqueles em quem somente vejo qualidades, suscita em mim certa vitalidade, um bem estar, revela-me e estimula-me, por isso o amo.

Enquanto não aceitar em mim uma mistura de qualidades e defeitos, de amor e ódio, de maturidade e imaturidade, continuo a dividir o mundo em inimigos (os maus) e amigos (os bons), continuo a levantar em mim e fora de mim barreiras e preconceitos. Quando aceito ter defeitos e fraquezas, mas também poder progredir para a maturidade e a liberdade interior, então posso aceitar as fraquezas e os defeitos dos outros, eles também podem progredir para a liberdade do amor.

Fonte: Texto extraído de VANIER, Jean. Comunidade Lugar do perdão e da festa . São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1980 – CAPÍTULO I, pg.21.