{"id":1926,"date":"2020-10-09T15:24:07","date_gmt":"2020-10-09T18:24:07","guid":{"rendered":"https:\/\/comunidadefidelidade.com\/site\/?p=1926"},"modified":"2020-10-09T15:24:15","modified_gmt":"2020-10-09T18:24:15","slug":"porque-o-socialismo-nunca-podera-dar-certo-sao-thomas-more","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comunidadefidelidade.com\/site\/porque-o-socialismo-nunca-podera-dar-certo-sao-thomas-more\/","title":{"rendered":"Porque o socialismo nunca poder\u00e1 dar certo \u2013 S\u00e3o Thomas More"},"content":{"rendered":"\n<p>A OBRA MAIS CONHECIDA de S\u00e3o Tom\u00e1s More (1478-1535), chanceler da Inglaterra e M\u00e1rtir da F\u00e9, \u00e9 \u201cA Utopia\u201c, ou \u201cSobre a constitui\u00e7\u00e3o ideal do Estado e a nova ilha Utopia\u201d, lan\u00e7ada em Londres em 1518.<\/p>\n\n\n\n<p>No texto, ele dialoga com o navegador Rafael Hitlodeu, que teria viajado com Am\u00e9rico Vesp\u00facio e que apresentava ent\u00e3o uma esp\u00e9cie de pensamento protocomunista. S\u00e3o Tom\u00e1s, por sua vez, ressalta a doutrina da Igreja e defende a propriedade privada e a desigualdade como coisa natural e inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Hitlodeu afirmava:<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00fanico meio de distribuir os bens com igualdade e com justi\u00e7a e de fazer a felicidade do g\u00eanero humano \u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o da propriedade. Enquanto o direito de propriedade for o fundamento do edif\u00edcio social, a classe mais numerosa e mais estim\u00e1vel n\u00e3o ter\u00e1 por quinh\u00e3o sen\u00e3o mis\u00e9ria, tormentos e desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Tom\u00e1s More replica:<\/p>\n\n\n\n<p>Longe de compartilhar das tuas convic\u00e7\u00f5es, julgo, ao contr\u00e1rio, que o pa\u00eds onde se estabelecesse a comunh\u00e3o de bens seria o mais miser\u00e1vel de todos os pa\u00edses. Como ent\u00e3o produzir para as necessidades do consumo? Todos fugiriam do trabalho e deixariam de se preocupar com a pr\u00f3pria subsist\u00eancia, pois cada um confiaria tranquilamente no zelo dos outros. E, no caso de sobrevir a mis\u00e9ria, sem que fosse l\u00edcito aos cidad\u00e3os dispor de alguma coisa como propriedade particular, o que se seguiria sen\u00e3o a incessante, esfomeada e amea\u00e7adora rebeli\u00e3o? Os homic\u00eddios ensanguentariam a tua rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Que barreira se oporia \u00e0 anarquia? Os magistrados teriam apenas autoridade nominal; estariam destitu\u00eddos de tudo o que imp\u00f5e temor e respeito. N\u00e3o chego mesmo a conceber a possibilidade de governo nesse povo de niveladores que repelisse toda esp\u00e9cie de superioridade.<br>(Utopia, parte I, ed. Athena. Rio de Janeiro 1937, p\u00e1g. 61).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estava preso na Torre de Londres, S\u00e3o Tom\u00e1s escreveu uma obra intitulada \u201cDi\u00e1logo da fortaleza contra a tribula\u00e7\u00e3o\u201c, em que exp\u00f5e suas ideias referentes a economia. Particularmente interessante \u00e9 que ele j\u00e1 previa com grande clareza o que haveria de acontecer nos pa\u00edses socialistas\/comunistas do s\u00e9culo XX:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 absolutamente necess\u00e1rio que haja homens dotados de posses; caso contr\u00e1rio, existir\u00e3o mais mendigos do que j\u00e1 existem e n\u00e3o haver\u00e1 cidad\u00e3o \u00e0 altura de socorrer o seu pr\u00f3ximo. Tenho para mim como certa a seguinte conclus\u00e3o: se todo o dinheiro existente neste pa\u00eds fosse amanh\u00e3 sequestrado de seus propriet\u00e1rios, acumulado num dep\u00f3sito comum e, a seguir, redistribu\u00eddo, em por\u00e7\u00f5es iguais, a cada um dos habitantes da regi\u00e3o, estar\u00edamos depois de amanh\u00e3 em piores condi\u00e7\u00f5es do que amanh\u00e3. Creio que, se todos os cidad\u00e3os recebessem igual por\u00e7\u00e3o de bens, os que hoje est\u00e3o bem colocados ficariam em posi\u00e7\u00e3o pouco melhor do que a de um mendigo de hoje; doutro lado, aqueles que hoje s\u00e3o mendigos, apesar do que lhes sobreviesse mediante essa nova reparti\u00e7\u00e3o de bens, n\u00e3o seriam colocados em situa\u00e7\u00e3o multo melhor do que a de um mendigo de hoje. Aconteceria, em todo caso, que muitos daqueles que hoje s\u00e3o ricos, se viessem a possuir apenas bens m\u00f3veis, se tornariam pobres para o resto da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Os homens, como bem sabeis, n\u00e3o podem viver neste mundo sem que uns proporcionem os meios de vida a muitos outros. Nem todos est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de possuir um barco, nem todos est\u00e3o habilitados para exercer o com\u00e9rcio (por falta de estoque), nem todos est\u00e3o \u00e0 altura de ter um arado (n\u00e3o obstante, sabeis como essas coisas s\u00e3o necess\u00e1rias). E quem poderia viver da profiss\u00e3o de alfaiate se n\u00e3o existisse quem estivesse em condi\u00e7\u00f5es de encomendar uma roupa? E quem poderia viver da profiss\u00e3o de pedreiro ou carpinteiro se n\u00e3o existissem homens capazes de mandar construir igrejas ou casas? E que fariam os tecel\u00f5es se faltassem propriet\u00e1rios de f\u00e1bricas para movimentar a sua respectiva ind\u00fastria? Melhor \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do homem que, n\u00e3o tendo nem sequer dois ducados em sua casa, entrega o que tem e fica sem coisa alguma, do que a condi\u00e7\u00e3o daquele que, sendo rico propriet\u00e1rio (do qual o primeiro \u00e9 empregado), venha a perder a metade dos seus haveres. Este outro estaria ent\u00e3o obrigado a se tornar empregado ele mesmo. Acontece, por\u00e9m, que o homem pobre (empregado) tem a sua fonte de vida precisamente nos haveres do rico. Em tais circunst\u00e2ncias, dar-se-ia com o pobre aquilo que se deu com a mulher da qual trata uma das f\u00e1bulas de Esopo: esta tinha uma galinha que diariamente lhe dava um ovo de ouro; um belo dia, julgando que, de uma s\u00f3 feita, se poderia tornar propriet\u00e1ria de grande quantidade de ovos, matou a galinha; eis, por\u00e9m, que s\u00f3 encontrou um ou dois ovos no ventre da ave. Assim, por cobi\u00e7a desses poucos ovos, ela veio a perder grande n\u00famero deles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante notar, tamb\u00e9m, que More tampouco defendia o capitalismo irrespons\u00e1vel e individualista, mas sim o valor social do dinheiro, tal como o faz a atual Doutrina Social da Igreja e que Chesterton e Belloc tentaram sistematizar no sistema distributista. Tal coisa fica expl\u00edcita neste trecho:<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele que n\u00e3o tem solicitude pelos s\u00faditos \u00e9 pior do que um ap\u00f3stata da f\u00e9. Os nossos s\u00faditos s\u00e3o os que nos foram confiados ou nela natureza ou pela lei ou por algum mandato de Deus: (\u2026) pela natureza, como os nossos filhos; pela lei, como os nossos serventes dom\u00e9sticos. Embora filhos e serventes n\u00e3o nos estejam confiados do mesmo modo, creio que, mesmo com rela\u00e7\u00e3o aos serventes (com os quais temos menos estreita liga\u00e7\u00e3o), estamos obrigados a ser sol\u00edcitos e a prover \u00e0s suas necessidades. Estamos, sim, obrigados, tanto quanto nos \u00e9 poss\u00edvel, a cuidar de que n\u00e3o care\u00e7am das coisas que lhes s\u00e3o necess\u00e1rias enquanto se acham a servi\u00e7o nosso. Por conseguinte, se v\u00eam a adoecer enquanto nos servem, cabe-nos o dever de os tratar; de modo nenhum ser-nos-ia l\u00edcito expuls\u00e1-los de casa e abandon\u00e1-los sem conforto, por todo o tempo em que n\u00e3o estejam em condi\u00e7\u00f5es de trabalhar e de prover a si mesmos. Um tal procedimento seria contr\u00e1rio a todas as regras do bom senso humano.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Refer\u00eancia: <\/strong>Dom Est\u00eav\u00e3o Bettencourt. A utopia de Thomas Moore, revista Pergunte e Responderemos n\u00ba59 (novembro de 1962)<\/em><br><em><strong>Via:<\/strong> O Fiel Cat\u00f3lico<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A OBRA MAIS CONHECIDA de S\u00e3o Tom\u00e1s More (1478-1535), chanceler da Inglaterra e M\u00e1rtir da F\u00e9, \u00e9 \u201cA Utopia\u201c, ou \u201cSobre a constitui\u00e7\u00e3o ideal do Estado e a nova ilha Utopia\u201d, lan\u00e7ada em Londres em 1518. 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