Na fé católica, afirmamos que um dogma é uma verdade revelada por Deus, acolhida e ensinada pela Igreja. Ele não é uma opinião nem uma tradição humana, mas uma luz segura que nos orienta no caminho da salvação. Os dogmas existem para proteger a fé contra erros e confusões, garantindo que aquilo que cremos hoje seja exatamente o que Cristo e os apóstolos ensinaram desde o início.
Entre esses pilares da nossa fé está o Primado de São Pedro. Cristo não deixou a sua Igreja sem direção. Ele quis um pastor visível que conduzisse, unisse e confirmasse os irmãos na fé. Por isso, escolheu Pedro de maneira pessoal e direta, fazendo dele a rocha sobre a qual a Igreja seria edificada. Esse primado é fundamental porque garante a unidade da Igreja ao longo dos séculos, preserva a verdade do Evangelho e nos dá a certeza de que caminhamos não segundo ideias humanas, mas segundo a vontade de Cristo, confiada a Pedro e a seus sucessores.
Essa missão confiada por Cristo a Pedro aparece de forma clara nas Escrituras. Em Mateus 16,18, Jesus declara: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Aqui, Cristo não apenas elogia Pedro, mas institui algo novo. Ele muda o nome de Simão para Pedro, que significa “rocha”, mostrando que aquela fé firme seria o fundamento visível da Igreja. Na Bíblia, a mudança de nome sempre indica uma nova missão dada por Deus, e aqui não é diferente.
Essa missão é confirmada mais adiante no Evangelho de João (21,15-17), quando Jesus diz: “Apascenta as minhas ovelhas”. Cristo, o Bom Pastor, escolhe um pastor para guiar o seu povo na história. É como se dissesse: “Pedro, cuida daquilo que é meu”. Assim, a Escritura mostra que o primado de Pedro não é uma invenção humana, mas vontade direta de Cristo. Ao unir esses dois momentos — o nome e o envio como pastor — compreendemos o profundo significado da missão de Pedro: ele não é chefe por força ou mérito próprio; é rocha porque Cristo o fez rocha. Ele não apascenta por iniciativa pessoal, mas porque Cristo confiou a ele o seu rebanho.
É sobre essa autoridade dada pelo próprio Jesus que se apoia a unidade da Igreja. Quando entendemos que Cristo confiou a Pedro a missão de ser rocha e pastor do rebanho, fica claro que Ele estabeleceu uma forma visível de liderança para a sua Igreja. Cristo é, e sempre será, a cabeça invisível, a origem e o centro da fé. No entanto, sabendo que a Igreja vive na história e é formada por pessoas concretas, Ele quis colocar um apóstolo como cabeça visível, alguém que representasse sua autoridade diante dos demais.
Pedro não substitui Cristo, mas torna presente, de forma humana e acessível, a autoridade do próprio Senhor. É por isso que falamos em primado de jurisdição. Essa expressão, que pode parecer complicada, significa que Pedro recebeu de Cristo uma autoridade real, prática e imediata sobre toda a Igreja. Não se trata de uma honra simbólica ou de um título decorativo. Cristo confiou a ele o poder de ensinar, conduzir e tomar decisões em nome do Mestre. Essa autoridade foi dada por Jesus, não pelos outros apóstolos, e por isso Pedro se torna o ponto de unidade do colégio apostólico.
Enquanto Cristo cuida da Igreja de forma espiritual e eterna, Pedro exerce o papel de guia visível dos discípulos. Ele é o sinal concreto de que a Igreja não está abandonada, de que há uma autoridade legítima capaz de confirmar os irmãos na fé e manter a comunhão. O que Pedro recebeu naquele tempo continua vivo hoje no ministério do Papa, que prolonga essa missão ao longo dos séculos.
Ao receber de Cristo uma autoridade imediata, Pedro recebeu também uma missão muito clara: ser o princípio de unidade da Igreja nascente. Em meio a doze homens fortes, diferentes e impulsivos, Cristo escolhe um deles para garantir que a fé permaneça una e firme. Pedro não é o melhor nem o mais perfeito, mas simplesmente aquele que Cristo quis colocar como referência para os demais.
Essa missão aparece de forma tocante no Evangelho de São Lucas (22,32): “Eu rezei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma os teus irmãos”. Aqui está a chave de tudo. Cristo não pede apenas que Pedro sirva ou ajude, mas lhe confia a missão de confirmar os irmãos, fortalecer a fé deles. Ele reza por Pedro de modo particular, confiando-lhe uma responsabilidade espiritual única, pessoal e direta. Nenhum outro apóstolo recebeu uma missão semelhante com tamanha clareza. Todos foram enviados a pregar e todos receberam o Espírito Santo, mas somente Pedro foi colocado como aquele que garante a firmeza da fé dos demais.
Por isso, ele se torna o ponto de referência, o elo de unidade, o pastor que cuida não apenas de uma parte, mas de todo o rebanho. Essa missão não terminou com sua morte; ela faz parte da própria estrutura da Igreja querida por Cristo. Ao longo dos séculos, os sucessores de Pedro continuam essa missão de unir, guiar e confirmar os irmãos na fé. É assim que a Igreja permanece una, firme e fiel ao Evangelho desde os primeiros tempos até hoje.
Desde os primeiros séculos, essa missão especial de Pedro ficou clara para os cristãos. Os próprios líderes da Igreja, os Padres da Igreja, testemunharam isso em seus escritos. Eles falavam da Igreja de Roma como a Igreja que preside na caridade e reconheciam nela uma autoridade particular entre todas as Igrejas cristãs. Não porque Roma fosse a maior cidade, mas porque era a sede de Pedro e de seus sucessores. Para eles, seguir a fé da Igreja Romana significava permanecer fiel aos ensinamentos dos apóstolos.
Muitas comunidades recorriam ao Bispo de Roma quando surgiam dúvidas, conflitos ou disputas doutrinárias. Sempre que havia risco de divisão, buscava-se na sede de Pedro uma resposta segura e uma orientação capaz de preservar a unidade. O mais importante é que Roma exercia esse papel não como uma intervenção externa, mas como um serviço natural, fruto de uma missão recebida do próprio Cristo.
Com o crescimento da Igreja e o surgimento de novas situações históricas, tornou-se necessário expressar essa missão de forma doutrinária. No Concílio de Calcedônia (451), os bispos proclamaram com respeito a autoridade do Bispo de Roma, afirmando que Pedro falava por meio dele. Séculos depois, no Concílio Vaticano I (1870), a Igreja definiu solenemente o primado de jurisdição do Papa, isto é, sua autoridade plena e imediata sobre toda a Igreja, exatamente como Cristo confiou a Pedro. Não se tratou de uma novidade, mas da afirmação clara de uma realidade vivida desde o início.
Ao longo da história, surgiram dúvidas sobre o papel de Pedro e do Papa. Uma das mais comuns é a afirmação de que “todos os apóstolos eram iguais”. De fato, todos receberam a missão de anunciar o Evangelho, mas a Escritura mostra que, entre os Doze, Pedro recebeu uma missão singular: ser a rocha, o pastor e aquele que confirma os irmãos na fé. Essa função não diminui os outros apóstolos, mas dá à Igreja um ponto de unidade, exatamente como Cristo desejou.
Outra objeção frequente é a ideia de que a Igreja teria inventado o Papado séculos depois. A história, porém, mostra o contrário. Desde os primeiros tempos, as comunidades recorriam ao Bispo de Roma para preservar a doutrina e resolver disputas. Os Padres da Igreja testemunham essa autoridade antes mesmo de qualquer definição dogmática. Acima de tudo, a própria Escritura revela a intenção de Cristo ao dar a Pedro o nome de “rocha”, as chaves do Reino e a ordem de apascentar todo o rebanho.
Por fim, alguns questionam: se Cristo é a cabeça da Igreja, por que falar de uma cabeça visível? A resposta é simples. Cristo é, de fato, a cabeça invisível da Igreja, e nada nem ninguém pode substituí-lo. No entanto, como Ele mesmo instituiu uma comunidade visível, formada por pessoas reais, quis também um guia visível que representasse sua autoridade na história. Pedro e seus sucessores exercem essa função não substituindo Cristo, mas tornando presente, de forma concreta, a autoridade do Senhor, que continua vivo e atuante na sua Igreja.
Flávio Alexandre – Comunidade Fidelidade








