Para compreendermos a profundidade da Epístola de São Paulo aos Romanos, é necessário viajar no tempo até aproximadamente o ano 57 d.C., quando o Apóstolo dos gentios se encontrava na cidade de Corinto. Diferentemente de outras cartas escritas para corrigir problemas específicos, esta obra nasce com um horizonte mais amplo: Paulo volta o seu coração para Roma, a capital do Império, onde ainda não havia pregado pessoalmente.
Como verdadeiro doutor da fé, ele sente a necessidade de apresentar, de forma clara e sólida, o Evangelho à comunidade cristã que já florescia no centro do mundo antigo. A Igreja em Roma era formada por judeus que reconheceram Jesus como Messias e por pagãos convertidos — os chamados gentios. Essa convivência, porém, nem sempre era simples, pois antigas tradições e costumes frequentemente geravam tensões. Paulo escreve, portanto, como um construtor de pontes, buscando unir esses dois grupos sob a bandeira da caridade e da unidade doutrinária.
O propósito da carta pode ser compreendido em três dimensões principais: preparar sua futura visita a Roma, de onde pretendia seguir em missão até a Espanha; pacificar os conflitos internos entre os fiéis; e deixar registrada uma exposição sistemática do mistério da salvação cristã.
O tema central da carta encontra-se em Romanos 1,16-17:
“Não me envergonho do Evangelho, pois ele é força de Deus para a salvação de todo aquele que crê (…) o justo viverá pela fé.”
Nessas palavras, o apóstolo faz uma verdadeira declaração de coragem. O Evangelho não é, para Paulo, uma ideia abstrata nem um conjunto pesado de regras, mas o próprio poder de Deus em ação, capaz de transformar a vida humana. Trata-se de uma força viva que arranca o homem da escuridão e o conduz a uma existência nova, independentemente de sua origem ou passado.
Essa força manifesta aquilo que Paulo chama de “justiça de Deus”. Diferente da justiça humana, frequentemente centrada na punição, a justiça divina é o ato pelo qual Deus nos torna justos por meio da confiança em Cristo. É um convite a abandonar o cansaço de tentar salvar-se pelos próprios méritos e aprender a viver da fé para a fé.
Como um médico zeloso, Paulo apresenta primeiro o diagnóstico antes de oferecer o remédio. No capítulo 1, ele observa a realidade dos pagãos, mostrando como a humanidade se perdeu ao trocar o Deus Criador por ídolos. Ao ignorar a fonte da vida, o ser humano mergulhou na desordem moral, revelando que, sem o auxílio divino, a inteligência e o comportamento se obscurecem.
Em seguida, no capítulo 2, o apóstolo dirige seu olhar ao povo judeu, afirmando que possuir a Lei de Moisés ou pertencer externamente a uma religião não garante santidade. Conhecer a vontade de Deus e não praticá-la conduz à hipocrisia, pois Deus não olha as aparências, mas o coração.
O veredito final aparece de forma contundente em Romanos 3,23: todos pecaram e estão privados da glória de Deus. Diante da perfeição divina, ninguém pode considerar-se justo por suas próprias forças. Surge então a grande pergunta: como recuperar a amizade com Deus?
Paulo responde afirmando que a solução não nasce do homem, mas do próprio Deus. Cristo ofereceu-se como sacrifício definitivo para restaurar nossa comunhão com o Pai — aquilo que a teologia chama de propiciação: um gesto de amor no qual Cristo assume nossa condição para que a justiça seja plenamente realizada.
Para demonstrar que esse caminho sempre esteve fundamentado na fé, Paulo recorda Abraão, no capítulo 4. Antes mesmo da Lei, ele foi justificado porque acreditou na promessa: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça” (Rm 4,3). A fé, portanto, não é mero sentimento, mas entrega confiante nas mãos de Deus.
As consequências dessa justificação aparecem no capítulo 5: “Justificados pela fé, temos paz com Deus”. Paulo estabelece um profundo contraste entre Adão, por quem o pecado entrou no mundo, e Cristo, por quem a graça e a vida transbordaram para todos.
No capítulo 6, ele recorda que o batismo não é um rito simbólico passageiro, mas participação real na morte e ressurreição de Cristo. Morremos para o pecado e nascemos para uma vida nova. Contudo, essa caminhada não elimina imediatamente a luta interior. No capítulo 7, Paulo descreve o conflito humano entre o desejo de fazer o bem e a inclinação para o mal: “Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse eu pratico” (Rm 7,19).
A resposta encontra-se no capítulo 8, onde surge uma das páginas mais luminosas do Novo Testamento: a vida no Espírito Santo. Já não somos escravos do medo, mas filhos que podem clamar “Abba, Pai”. A vitória não depende apenas do esforço humano, pois já foi conquistada em Cristo. Por isso Paulo proclama: “Somos mais que vencedores por aquele que nos amou” (Rm 8,37).
Nos capítulos 9 a 11, o apóstolo contempla o mistério da história da salvação. Mesmo quando muitos em Israel não reconheceram Cristo, a misericórdia divina permitiu que o Evangelho alcançasse todas as nações. Para explicar essa realidade, Paulo utiliza a imagem da oliveira: Israel é a raiz original, e os gentios são ramos enxertados. Assim, ninguém deve orgulhar-se, pois não somos nós que sustentamos a raiz, mas a raiz que nos sustenta.
A partir do capítulo 12 até o final da carta, a teologia transforma-se em vida concreta. Paulo convida os cristãos a oferecerem suas vidas como “sacrifício vivo”, aquilo que chama de culto racional. A fé deve manifestar-se nas relações diárias, na vida social e no testemunho público. No capítulo 13, ele ensina sobre o respeito às autoridades e resume toda a lei em uma única dívida permanente: o amor. “O amor não faz mal ao próximo; o amor é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10).
Nos capítulos 14 e 15, Paulo aborda a convivência fraterna, pedindo paciência e caridade diante das diferenças secundárias. A unidade cristã não exige uniformidade absoluta, mas comunhão no essencial, para que todos glorifiquem a Deus com uma só voz.
Por fim, no capítulo 16, a carta assume um tom profundamente humano. Paulo cita homens, mulheres e famílias, lembrando que a Igreja não é feita de ideias abstratas, mas de pessoas concretas que servem juntas ao Reino. A fé cristã, assim, revela-se como uma obra comunitária, vivida em comunhão, serviço e amor.
A Epístola aos Romanos permanece, até hoje, como uma das exposições mais profundas do Evangelho: um convite permanente a reconhecer nossa fragilidade, acolher a graça e viver a fé que transforma a existência.








