A Quaresma: Caminho de Conversão e Preparação para a Páscoa
A Quaresma é um tempo especial de preparação para a Páscoa, o momento mais importante para nós, cristãos. São quarenta dias nos quais a Igreja nos convida à conversão, à penitência e ao crescimento espiritual.
Desde os primeiros tempos, os cristãos compreenderam que a caminhada rumo à Páscoa exige uma verdadeira mudança interior. Não basta apenas celebrar a Ressurreição de Cristo; é necessário preparar o coração para acolhê-Lo de forma autêntica. Essa preparação acontece por meio de três pilares fundamentais que a própria Sagrada Escritura nos ensina: o jejum, a oração e a esmola.
No Evangelho de São Mateus, Jesus nos adverte:
“Cuidado! Não pratiqueis vossa justiça diante dos outros só para serdes notados” (Mt 6,1).
Com essas palavras, o Senhor mostra que essas práticas devem ser vividas com humildade, sem busca de reconhecimento, mas com o coração voltado para Deus. Rezar, jejuar e ajudar os necessitados não são apenas costumes religiosos, mas caminhos concretos para fortalecer a fé e crescer espiritualmente.
A seguir, compreendamos melhor cada um desses pilares e como vivê-los de maneira verdadeira.
O Jejum
O jejum é o primeiro pilar que nos auxilia nessa caminhada espiritual. Mas o que significa jejuar na tradição católica?
O jejum não é apenas deixar de comer ou passar fome. Trata-se de um ato de penitência e disciplina espiritual, um meio de nos aproximarmos de Deus e aprendermos a dominar nossos desejos e paixões. Ao jejuar, não renunciamos apenas a algo material; fortalecemos a alma e reconhecemos que nossa maior necessidade é o próprio Deus.
Muitas pessoas confundem jejum com abstinência. O jejum consiste em realizar apenas uma refeição completa ao dia, permitindo-se duas pequenas porções de alimento. Já a abstinência refere-se a não comer carne.
A Igreja pede o jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, e a abstinência de carne em todas as sextas-feiras da Quaresma.
O verdadeiro sentido do jejum é educar o coração: exercitar o domínio próprio, a moderação e o desapego, unindo nossos sacrifícios ao sacrifício de Cristo na Cruz. Quando jejuamos, recordamos as palavras de Jesus:
“Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).
A Igreja também ensina que o jejum não pode ser apenas exterior. Se não houver desejo sincero de conversão, ele perde seu valor espiritual. O profeta Isaías recorda:
“O jejum que eu prefiro é este: soltar as correntes injustas, libertar os oprimidos e romper todo jugo” (Is 58,6).
Nem todos são obrigados ao jejum. Doentes, idosos, gestantes, crianças e pessoas com limitações de saúde são dispensados. Ainda assim, todos podem oferecer outros sacrifícios, renunciando a algo ou dedicando mais tempo à oração e à caridade.
O jejum nos recorda que Deus é o nosso verdadeiro alimento e que a renúncia cristã conduz à verdadeira liberdade.
A Oração
A oração é o segundo pilar da Quaresma, pois sem oração não há verdadeira conversão.
Neste tempo, a Igreja nos convida a intensificar a vida espiritual, dedicando mais tempo ao diálogo com Deus. É um período de recolhimento, reflexão e abertura do coração para escutar a voz do Senhor.
Quanto mais rezamos, mais nossa fé se fortalece e mais nos preparamos para viver plenamente a Páscoa. Existem muitas formas de aprofundar a oração durante a Quaresma:
- o Santo Terço, que nos une a Nossa Senhora e nos ajuda a contemplar a vida de Cristo;
- a Via-Sacra, que nos conduz à meditação do caminho de Jesus até a Cruz;
- o Angelus, que recorda o mistério da Encarnação;
- o Ofício da Imaculada Conceição, expressão de amor filial à Virgem Maria;
- a leitura orante da Bíblia, pela qual Deus fala ao coração.
Rezar não significa apenas falar com Deus, mas também ouvi-Lo. Por isso, a Quaresma é tempo de silêncio interior, de afastar-se das distrações e abrir espaço para que o Senhor fale.
A oração transforma o coração, revela nossas fraquezas, fortalece-nos contra as tentações e nos aproxima do amor de Deus. Quem reza com sinceridade caminha para uma conversão verdadeira e prepara-se para viver com alegria a Ressurreição.
A Esmola
A esmola é o terceiro pilar da Quaresma e nos ensina a amar concretamente o próximo. Trata-se de um chamado à caridade verdadeira, que vai muito além de uma simples ajuda material.
Na tradição cristã, a esmola significa viver a generosidade com um coração sincero. Jesus ensina que o valor da caridade não está apenas no que damos, mas na forma como damos. Nada adianta ajudar por obrigação ou para ser visto.
A esmola vivida com amor transforma quem dá e quem recebe. Podemos praticá-la de diversas maneiras:
- ajudando os necessitados com alimentos, roupas ou doações;
- colaborando com obras sociais da Igreja;
- visitando idosos e doentes, especialmente os que estão sozinhos;
- oferecendo tempo, escuta e atenção a quem sofre.
Muitas vezes, mais do que bens materiais, as pessoas precisam de presença e compaixão.
Jesus nos recorda:
“Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes…” (Mt 25,35).
E conclui:
“Tudo o que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes.”
Assim, ao ajudarmos alguém, é o próprio Cristo que servimos. A esmola não é apenas um gesto de generosidade, mas um verdadeiro ato de amor a Deus.
Conclusão
A Quaresma é um convite a abrir o coração. Por meio do jejum, da oração e da caridade, somos conduzidos a uma transformação interior que nos prepara para viver plenamente a alegria da Ressurreição.
Quando vivemos esses três pilares com sinceridade, tornamo-nos instrumentos da misericórdia de Deus e caminhamos rumo à Páscoa com o coração renovado.
Flavio Alexandre – Missionário da Comunidade
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